TERCEIRO CAPITULO


 

LEMBRANÇAS CAFÉ A BRASILEIRA -LISBOA

Divagando por entre palavras e orações, reparo que bem a minha frente o velho barco conhecido por cacilheiro aporta junto ao cais do Sodré na cidade de Lisboa trazendo consigo uma grande multidão que sai correndo apresada em direção aos seus postos de trabalho. São homens e mulheres sem rosto e cedentes por outras oportunidades, que lhes tragam satisfação pessoal. Enquanto isso, lá no alto dos céus, gaivotas sobrevoam por toda parte na esperança de poderem encontrar um pedaço de pão. Levanto-me e decido regressar ao meu apartamento, pois o frio junto ao cais tornou se insuportável. Sei que a distancia ate meu apartamento não é longa, mas mesmo assim, devido a baixa temperatura resolvo pegar um ônibus com destino a Santa Polônia. De lá subo a pé ate meu apartamento.

Eu moro na Travessa das Freiras, bairro São Vicente, no ultimo andar de um prédio que conhecemos por águas furtadas, localizado a poucos metros do Panteão Nacional. Dá minha janela, ao longe, vejo o Rio Tejo a correr lentamente e escuto o murmurar constante dos meus visinhos vindo da taberna que fica bem de frente ao prédio onde vivo. No apartamento do lado, vive um casal de idosos cujos filhos imigraram para o Canadá já há alguns anos. Um dos idosos sofre do mal de Parkinson e é terrível, pois há alturas que grita durante toda a noite sem deixar ninguém dormir. Quando isso acontece, visto um casaco bem quente e vou dar uma volta pela cidade. Adoro caminhar por Lisboa durante a noite. Suas ruas e ruelas são tão estreitas que em muitas mal passam carros. Quanto à zona do Castelo, o seu estilo arquitetônico tem um ar meio medieval e conforme os anos passaram se misturou com várias formas dando lhe deste modo um emaranhado de estilos diversificados, que chegam a confundir qualquer historiador. Em frente ao Rio Tejo encontra-se a baixa Pombalina, cuja arquitetura sofreu uma grande transformação no dia 1 de novembro 1755 devido a um terrível terremoto que arrasou toda cidade e os seus arredores. O primeiro ministro da época, por nome de Marques de Pombal, junto com arquitetos, reergueu a cidade em meio aos escombros, dando inicio desse modo a uma nova arquitetura, que foi chamada de estilo Pombalino. A Baixa, como a grande maioria das pessoas chama, tem algo de místico, pois os nomes das ruas e praças foram dados pela Confraternização da Maçonaria. Quem entende bem desses assuntos poderá reconhecer alguns dos símbolos maçônicos em diversas ruas. O bairro da Alfama e o da Moraria, de vielas e ruas bem estreitas, tem características árabes. São bairros habitados por pessoas da classe operaria. Resumindo tudo isso em uma só palavra, posso dizer que essa região é um autentico labirinto. Esta cidade oferece, para quem é apaixonado por historia, uma viagem a outros tempos.

Durante todos estes anos, nada de mal me aconteceu. Creio que é devido a minha altura e ao fato de me vestir sempre de preto. Sou um andarilho. Um ser solitário e ao mesmo tempo invisível aos olhos de todo mundo. Os meus poucos amigos me chamam de filosofo do povo. Às vezes quando nos encontramos e vamos ate o Café A Brasileira, para compartilharmos idéias ou simplesmente relatar fatos corriqueiros. Sentados à mesa nós rimos como crianças inocentes e nos embriagamos com café e mais de uma dúzia de cigarros, enquanto palavras soltas misturam-se com o azafama da velha cidade ate que o dia desvanecesse vagarosamente e ultimo cigarro se apaga. Para se ter uma vaga idéia de onde fica localizado o Café A Brasileira, é só subir a Rua Garret em direção a Praça de Camões onde se encontra as estatuas dos três maiores poetas portugueses: Fernando Pessoa, o Chiado e Luis de Camões. Muitas pessoas importantes e famosas foram freqüentadores assíduos do estabelecimento, tais como Almada Negreiros, Santa Rita, Mário de Sá Carneiro, Fernando Pessoa entre outros, que chegaram a criar no Café a “sede” do Grupo literário do Orpheu. O estabelecimento ocupa um lugar de costumes dos lisboetas e atraiu uma clientela de numerosos políticos, tanto de esquerda quanto de direita. Gente pobre ou abastada, turistas e por fim, os que se destacam são os envolvidos com a arte: artistas plásticos, músicos, escultores, poetas e escritores em grande abundância que ali fazem palestras e debatem assuntos sobre a era atual. O Café A Brasileira com suas paredes repletas de espelhos e enormes telas de quadros dos mais consagrados artistas portugueses é um cenário ideal para confraternizações e debate de idéias.

São inúmeras e boas as recordações que guardo. As conversas de café serão sempre memoriáveis. Cada encontro é um momento único carregado de magia e novidades junto dos meus queridos amigos, dos quais falarei um pouco. O Wando é formado em psicanálise e é esta sempre a analisar o comportamento das pessoas. Incluído o de cada um de nós. Sua família é da cidade de Leiria, arredores de Fátima, e todos eles estão envolvidos, de alguma maneira, com a arte. Quer seja na produção, divulgação ou venda de obras. Quando expandiram seus negócios acabaram por vir para Lisboa e se restabeleceram definitivamente por cá. Sempre que faziam uma exposição de pintura coletiva, convidava-me a expor algumas das minhas obras no seu espaço comercial. Em meio a uma exposição e outra vendi algumas telas que percorrem parte da Europa.

O Pedro nasceu em Moçambique e de acordo com ele seus antepassados eram negociantes indianos que imigraram e se restabeleceram na África por aproximadamente dois séculos. Nos finais dos anos setenta Moçambique tornou-se independente e seus pais, assim como muitos imigrantes, vieram viver em Portugal. Dentre nós, ele é o ser transcendente que vê amor em tudo. Formado em arquitetura, ele foi o primeiro arquiteto que recebeu o premio de inovação arquitetônica do século XXI. Há também um poeta que sonha em editar o seu primeiro livro, cujo titulo: “As Vielas negras de Lisboa” levantou muitas controvérsias entre nós. Seu nome é Manoel e sua família é de Bragança.
Por fim resta falar sobre o Rodrigo. Um apaixonado por arte sacra. Tem seus sessenta e poucos anos e é restaurador. Desapontado com o rumo que a sua vida tomou. Ele não deseja mais nada da vida senão um bom prato de sopa quente sobre a sua mesa. Está sempre calado e com o olhar perdido. A impressão que tenho é que ele sempre retorna a um ponto longínquo em sua vida, quando, quem sabe, tenha sido mais feliz.

Sempre que nos reuníamos nos sentíamos interligados de alguma forma, tal qual uma bela sinfonia que precisava ser finalizada. Agora estamos todos mais velhos e dificilmente nos encontramos. A idade e a vida de cada um de nós nos obriga a recolher-nos ainda mais cedo aos nossos aposentos. A impressão que tenho é a de que a cada ano que se passa, a necessidade de descansar aumenta cada vez mais. A cidade branca já não é o que era! O seu encanto está aos poucos a se perder ou talvez seja porque uma nova geração está a surgir e a nossa, obrigatoriamente, está a chegar ao seu fim. Quanto a mim, de vez em quando telefono para saber como tem passado, mas dificilmente nos reunimos, porque eles já não têm disposição para tanto e sempre escuto, do outro lado da linha, um suspiro com um misto de lamentos e mais lamentos. Cada um deles tomou a sua própria direção e construíram pequenos impérios. Afinal, temos que preservar o império de cada de nós, para que a vida não venha a pregar uma partida. Um império mediante as capacidades de cada um é o quanto nos basta para que a vida se transforme em memórias. Meu Deus o que seria do homem sem suas memórias?
Atualmente, no meu apartamento, existe uma foto a um canto e outra noutro. Estantes com livros velhos e sobre as paredes algumas pinturas de artistas tanto consagrados como anônimos; na sala, um piano cor de mogno com assinatura de Wagner, que nunca foi estreado e uma lareira que já não se acende. As portas rangem e a torneira tem um gotejar semelhante a um toque de um relógio, que nos vai anunciando o fim de uma longa jornada. Os azulejos da cozinha e do banheiro há muito que ficaram fora de moda e as paredes, inertes, se escureceram com o tempo, dando a casa um ar de abandono e tristeza. Das muitas memórias que carrego comigo, guardo a lembrança das crianças que se fizeram homens e a dos homens que envelheceram e se foram para nunca mais voltar. A voz em cada um de nós torna-se arrastada e o gemido de uma enfermidade aos poucos nos corroei por dentro. Esta é nossa sina e a condição que esta reservada a cada ser humano, seja rico ou pobre. Tudo passa por nós, tudo se repete, por que é preciso que tudo mude para que tudo volte ao mesmo. Muitos acabamos solitários, amargos e não queremos aceitar as farpas do destino, porque tudo se torna insuportavelmente cruel. Adormecer e despertar em cada manha, eis a rotina a que estamos habituados, sem mencionar o quanto ainda está por vir, mas eu, porem, já me vejo por um fio. Nada sei e nada faço, apenas limitei-me a cruzar os braços e a cambalear perdidamente por entre vielas a falar comigo mesmo e balbuciar orações em forma de lamentos.

Penso nas bem-aventuranças descritas no novo testamento: “Bem aventurados todos os que chorão porque serão consulados, bem aventurados os pobres de espírito porque verão a face de Deus”, mas me sinto demasiadamente distante de ti Senhor. O meu coração balanceia de um lado para outro e suspira desde o pôr ate ao nascer do sol. Não tenho mais forças para ir à tua casa, nem motivo algum para sorrir. Cada manhã para mim é apenas o surgimento de um simples dia e nada mais. Sim, apenas uma manhã na qual, inevitavelmente, me perco. Sou como filho pródigo, que partiu e que teme voltar. Como uma ovelha entre lobos preste a ser devorada. Um santo que um dia se escondeu numa caverna temendo apenas a sua própria sombra. Temo teu nome, mas desacreditei no céu e no inferno. O que é o inferno, senão esta vida e o que é o céu, senão um momento único de adoração ao teu Nome? Que saudades tenho quando ia com meus irmãos a tua casa, mas um a um se apartou de mim e me tornei um verme aos olhos de todos eles. Bem aventurados os que repousam entre o silêncio e a dor, porque alcançarão misericórdia.

Um dia tive um sonho com um varão de branco, que me disse três vezes: “segue-me”. Não sei se em forma física ou em espírito, pois eu também, assim como o apóstolo Paulo, um dia vi o céu. Neste mesmo sonho, que não sei ao certo se era verdadeiramente um simples sonho, olhei e vi um outro varão de idade avançada com uma criança ao colo e falava para uma multidão: “o que faremos com este?” Tive muitos outros sonhos, mas também, como não poderia deixar de ser, tive diversos pesadelos que, conforme o passar dos anos transformaram em realidade. Embora desejei, e muito, nunca sonhei com o face do Altíssimo, mas como dizem os poetas, “Deus quer, o homem sonha e a obra nasce”. Nós os sonhadores devemos ser os olhos de Deus na terra, por mais que alguns de nós não acreditemos. Deus se manifesta através de dons que nos dispensou. Ele acredita em nós, porque sabe que é da própria natureza humana se aperfeiçoar através dos seus erros. O homem erra para apreender a perfeição. É através desse processo que o amor se solidifica e passa a ter um sentido mais plausível e menos abstrato.

Descobri também que é exatamente este ponto, que traz insegurança e desequilíbrio a política e a religião. Certa vez, em algum ponto da bíblia, eu li estas palavras: “não precisais que vos ensinem nada, o mesmo espírito que esta em Mim, mostrará o caminho e porá em vós palavras que nunca foram pronunciadas”. Acredito nisto, mas sei que muitos anseiam por deturpar a verdade, influenciando os de consciências fracas, a não se sentirem no direito a vida eterna devido a certas franquezas que cometeram. Estes porem não entram nos céus nem os deixam entrar. São pessoas detentores da verdade, que a ocultam deliberadamente para tirar proveito dos mais fracos.

Enfim! Palavras? Levem-nas o vento e as ações que venham elas do mar em barcos solitários, por entre tempestades. Elas darão à costa no dia que ninguém espera ou no ano que nunca se escolhe. Os profetas, os sábios e todos os que muito ensinam sabem que serão sempre desprezados; sabem que são poucos aqueles que entendem a sua voz ou cântico, afinal, eles falam a língua dos anjos; a língua que só os corações generosos poderão entender. Não instruo a minha alma com meras palavras, nem falo o que não conheço. Na verdade tudo está dentro de mim, como um espelho que se ergue e reflete a luz do sol. Por ti Senhor, há muito que também anseio, mas nestes últimos dias eu me encontro como um espelho quebrado, que nem mais forças têm para se erguer. Houve alturas na minha vida que julguei ser a voz dos cansados ou cântico dos abatidos, mas meu cântico se mistura com muitos cânticos. Hoje ele é triste e desfalecido. Poesia urbana e traços nervosos de um cotidiano a que me habituei, quando volta em meia tudo em mim se desmorona como um castelo de areia junto ao mar. Oculto o meu rosto entre as pernas e fico a chorar em silencio por longas e longas horas. Oh Deus, quantas e quantas vezes me vejo a meditar! Sempre que as azafamas e os dissabores me assolam eu vou ao desespero e me refugio dentro de mim. Tem sido assim os meus dias, entre meditações e sonhos inacabados. Não consigo romper com o meu passado, nem anular minha existência, sou demasiado covarde para tirar a minha vida. Esse pensamento me faz recordar que certa vez, um dos meus saudosos tios me disse que não temia a morte, mas sim o sofrimento. Com os seus setenta e poucos anos adquirira uma enfermidade maligna e seus últimos dias foram de grande tribulação e dor. Recordo-me que não pude estar presente, ele vivia em Gutemburg na Suécia e só soube da sua morte meses depois, quando recebi uma carta de um estranho a relatar a sua morte e a dizer que ele tinha feito um testamento e todos os seus bens passaram a pertencer a ele. Ainda tentei reivindicar, mas foi tudo em vão, já que o tinham obrigado a assinar o testamento. A meu ver acho que usaram de má fé. Bem, pensei comigo mesmo, este foi o meu ultimo elo que me ligava a parte da minha família na Suécia. Hoje só somos apenas dois eu e meu filho. Como disse, a minha família da parte paterna eram da Suécia, da cidade de Gutemburg, o meu pai dizia sempre com um sorriso nos lábios que éramos descendentes de vikings e desse modo, todos eles foram marinheiros, mas eu sempre gostei de ficar em terra firme.

O meu pai, numa de suas muitas viagens, veio a Portugal e conhecera a minha mãe num bar alterno. O resultado estava à vista, eu e minhas irmãs somos como frutos deste acaso. Ele estava sempre ausente, viajando por todo mundo, ate que numa de suas muitas viagens nunca mais voltou. Morreu em Paris, devido a uma cirurgia mal sucedida. Quanto a minha mãe, nunca tivera o privilegio de vê-la. Dela apenas tenho uma velha foto preta e branca dos anos 70 que carrego comigo dentro da minha carteira.

Vivi em um orfanato toda a minha mocidade, ate que atingi os 18 anos e fui lançado na selva urbana. Por ter poucos estudos, fui obrigado a entrar no submundo dos que anseia por sobreviver. Podia ter cruzado os meus braços; me encostado a um canto para nada fazer ou ter me tornado um marginal, mas devido à rígida educação que tive acabei por adotar esse mesmo sistema no meu modo de vida. Talvez a vida de cada um de nós tenha este principio: o de escolhermos um rumo e seja qual for ele, indiscutivelmente, essa será a nossa vida. Podemos prever em parte alguns deles, como o rumo da decadência; das paixões ou da dignidade. Tentei o ultimo em meio a um manto de lagrimas e suor, e fui trabalhar como servente de pedreiro nas obras por aproximadamente de dez anos. Era um trabalho forçado, pois a grande maioria dos empreiteiros pagava mal e eu nunca fazia descontos para o estado. Recordo, com certo pesar, de cada inverno que passei. Era na verdade uma vida dura, pois todas as madrugadas eram cinzentas e as conversas sempre disparatadas. Lamentos constantes que se misturavam com sonhos impossíveis de se concretizar. Às vezes no silencio da noite interrogava-me se tudo isto era em vão e por mais que me interrogue, pouco ou nada saberei sobre esta minha existência ou esse modo de vida a que me sujeitei. Comer viver, eis o ciclo vicioso que já estou habituado. A vida para mim é comparada a uma corrente que contem em uma das pontas uma ancora que por sua vez nos aprisiona no fundo de nós mesmo. O mar é comparado a portas de abismos que nos traga e nos cega de modo que só enxergamos uma densa e vasta escuridão. Quando fecho os olhos e fico em silencio tudo a minha volta é escuro. Isto me assusta e me obriga a repensar a minha existência aqui ou em qualquer outro lugar. Eis o resumo de cada um de nós: palavras e atos que se perdem na virada do tempo, como folhas de antigos jornais que o vento leva para longe.

O LADO OCULTO DA ALMA

Conheci uma senhora que em seus sonhos se debruçava sobre uma ponte para ver um abismo em forma de rodopio, porque ele a hipnotizava e induzia-lhe a entrar na sua dimensão. Em uma de suas margens, por nome futuro, havia um grande sol que refletia atrás dela,, na sua sombra, toda a trajetória de sua vida. Um mundo só seu, onde ela podia ver todos os acontecimentos vividos e analisar os bons e maus momentos enfrentados. Compreendi que o lugar exato em que ela se encontrava, não era nada mais do que o momento presente da sua existência e que o abismo, era apenas um momento de fraqueza pelo qual ela estava passando. Es a comparação da nossa vida, es os três tempos num só, do qual o presente em cada um de nós fica suspenso quando paramos e dificilmente encontramos forças para continuar.

Conheci também uma outra pessoa que vivia dentro de si mesmo, perdido num labirinto repleto de grandes prateleiras, aonde se amontoavam milhares e milhares de livros carregados de pó. Este porem, durante toda sua vida, tentou compreender a existência humana e tudo que era possível se avaliar, tanto no lado visível como no oculto. A vida deste foi sempre em beneficio de si mesmo. Morreu jovem e nunca chegou a compartilhar seu saber com mais ninguém alem de si. Isolamento e desespero são as duas palavras que sempre vinham primeiro na sua vida e durante todo o seu peregrinar elas lhe foram uma constante companheira. Se algo descobriu em vida, ninguém nunca o soube, pois nu veio e nu se foi.

Quanto a mim, apenas posso dizer que os meus sonhos são sempre iguais. Ora vejo um homem como se estivesse perdido num deserto, ora vejo a minha própria sombra a cobrir o mundo. Todos têm sonhos intransmissíveis e cada um de nós transporta a força de um acaso em si, que certamente já foi pré-determinado, porque o sonho comanda a vida e Deus quer que o homem sonhe, por uma simples razão: o mundo se alimenta de cada um de nossos sonhos, assim como nós nos alimentamos do que o mundo nos dá.

Nós artistas, não sei se todos, mas creio que a maioria, sonham acordados. No metrô, no ônibus, num café ou praça publica, imaginamos o interior de cada indivíduo que passa por nós; é como se fossemos capazes de penetrar dentro das pessoas, sentido os seus receios e medos. Uns chegam a visualizar a áurea, outros nada vêem, mas conseguem se sensibilizar e retratar o mais oculto dos sentimentos. Quanto a mim, vejo o que ninguém deseja ver ou sentir: a dor e o sofrimento da alma humana, as vozes que nos perseguem, os problemas que nos abatem quando espíritos contrários nos levam a cometer barbaridades. Não podemos culpar o invisível, mas ate que ponto o ser humano esta preparado para lutar contra o que não vê? Quando era jovem adorava desvendar os caminhos do ocultismo, tentar compreender a morte ou que esta além dela. O invisível é a última das fronteiras que o ser humano terá que atravessar. Não podemos viver num mundo materialista e ficarmos indiferente ou ignorarmos os nossos sentimentos. Há muita gente capaz de ver, sentir e viver muito mais o transcendente do que o real. Indiscutivelmente, mais cedo ou mais tarde, o que está oculto se revelará e será posto à luz do dia, para bem ou para o mal da humanidade. Eu tenho uma visão que vai bem mais além dos meus olhos físicos, pois também consigo enxergar com o meu olho do espírito, conhecido por muitos como terceiro olho. Por ter uma visão ampla e percepção bem mais apurada, já fui, inúmeras vezes, tachado de louco pelos ignorantes da nossa “civilização”. Ate mesmo alguns amigos tinham receio de mim das minhas conversas metafísicas. Sempre gostei da leitura proporcionada pelos livros de Nostradamus, com as suas profecias futuristas, o livro de São Cipriano, a Bíblia com todos os seus mistérios apocalípticos e, por fim, a cabala que contem em si a chave para uma compreensão mais amplificada do significado da vida. Tudo o que era místico me maravilhava. Quando se é jovem só queremos chamar atenção e, geralmente, buscamos qualquer artifício para isso. Eu não fui diferente, se não tinha um argumento, não me calava, repensava e formulava um conceito que não ia longe do real, pois, como falei anteriormente, tenho uma percepção ampla. Qualquer argumento é a base para a construção do futuro. O que procuramos é o que sentimos e acreditamos ser possível concretizar. Foi pensando assim que desenvolvi o meu lado interior e também conseguia ajudar algumas pessoas que cruzavam o meu caminho, mas o medico dificilmente se cura assim mesmo, ele vive entre o mundo que desbrava e o mundo que contem enigmas. Assim como as profecias não são para o profeta, mas para quem ela é dirigida.

Certo dia, há muito tempo atrás, alguém me disse: “ você será um conselheiro”. Hoje me interrogo acerca de quem me aconselharia e de como é difícil receber um conselho. Na verdade é sempre tão complexo por em pratica as palavras de um estanho. O povo diz e com razão: faz o que digo e não o que eu faço. Ignorar ou viver é uma das possíveis opções de sobrevivência.

Com a barba por fazer e as minhas roupas escuras, afasto propositadamente todo mundo, para que a minha vida seja mais tranqüila. Caminhar no escuro ou ficar em silencio, morder os lábios para olhar o céu noturno, esperando que uma estrela cadente passe e traga uma nova mensagem. Por que será que ninguém mais observa os céus? A maioria dos homens cansou de sonhar e não escutam mais o cântico dos pássaros nem olham para o companheiro que viaja ao seu lado. Eles adormecem de frente para televisão e assistem noticias desagraveis vindas do mundo inteiro, pois aonde quer que o homem esteja, habitará sempre violência e conflitos. Suas noites surgem sem forma ou cor. Ate que ponto o ser humano conseguira agüentar a sua própria decadência ou ate aonde vai a sua loucura e solidão? A insuportável monotonia é o suficiente para que cada um de nossos sonhos se transforme em pó, porque viemos do pó e para ele retornaremos. Somos seres indiscutivelmente mesquinhos, duvidamos de nós mesmos, cruzamos os braços para nada fazermos, mesmo que tenhamos em nós o poder de agir. Rimos por entre a escuridão, em silencio, e anulamos a nossa existência dando um fim trágico as nossas vidas, afinal, adoramos tragédias. Não conseguimos caminhar sem rirmos dos que caem em desgraça, porque este é o pão nosso de cada dia e diante de tais circunstancias é difícil ficar calado, principalmente, quando nossas vidas se encontram estagnadas.

Dizemos que temos fé em Deus e o amamos, mas poucos compreendem o que quer dizer fé. Pensando bem, o que é mesmo a fé? Constantemente cremos no invisível e o amamos porque não o vemos, mas todos aqueles que nos são próximos, nós os desprezamos. Jesus disse “tive fome e não me destes de comer, tive sede e não me destes de beber, estive preso e nunca me visitastes”. Só hoje que vim a compreender as suas palavras, pois a minha dor esta diante do que observo constantemente. Como é fácil amar o que não vemos e difícil amar o que esta patente aos nossos olhos. Nos enganamos quando dizemos que amamos a Deus, mas esta é a fé dos homens. Este também sou eu, porque também vivi e me fiz amado, mas estou sempre a por em causa a palavra amor. Posso dizer que já ergui os meus braços aos céus, que já subi num púlpito e deixei Deus falar por mim. Vi profecias se cumprirem e sinais do céu a cercar os meus caminhos, mas hoje vivo entre as trevas, como um forasteiro que perdeu seu rumo. Não sei se duvido ou apenas me limitei a ficar em silencio, mas acho que me perdi em um determinado momento da minha vida. Acho que foi quando senti que todo meu empenho diante dos muitos problemas que tive que enfrentar era em vão. Talvez tenha uma missão na Terra, mas estou tão cego que nem diante do espelho consigo me enxergar.

Entre um emaranhado de pensamentos, levanto os meus olhos para o céu e fico perceptível ao que esta ao meu redor: as sombras noctívagas da noite começam a se formar e a lua em quarto minguante surge triste entre elas. A vizinha do lado chora a morte do seu amante. No outro lado da rua, em um apartamento de frente para o meu, observo que o único sinal de vida vem de uma das janelas cuja luz tremula reflete a sombra de um poeta em desespero, debruçado sobre um velho piano que eu jamais o ouvira a tocar. Penso no poeta e recordo que um dia li: “Seja qual for o caminho que eu escolher um poeta já passou por ele antes de mim”. Existem palavras que são eternas e outras que são apenas palavras que nenhum efeito em nós provoca. Se tivesse que escolher entre ser artista plástico ou poeta, escolheria ser poeta. Conhecendo eu cada letra daria ao mundo coisas sempre novas ou talvez indecifráveis. O poeta por natureza é um ser fingido. Ele troca o sentimento por palavras em forma de um código só seu, relatando ao mundo segredos da sua própria alma sem que alguma vez alguém os descubra. Infelizmente eu sou um pintor e nada mais do que isto. As minhas telas, há anos, se encontram em um canto da sala e quando me atrevo a escrever um poema, ele é tosco. Falta-me talvez uma musa ou deusa amável em meus sonhos. Faltam-me tantas outras coisas que só os poetas conhecem. Por entre a meditação, acendo um cigarro e fico de novo como perdido na madrugada, enquanto os meus olhos se perdem e a minha mente procura compreender cada uma das palavras que um poeta tenta tirar de dentro si. Palavras vindas do coração. No ar paira uma musica de Johann Sebastian Bach que envolve todo meu apartamento. Paixão segundo São João, aflorando em mim um sentimento de nostalgia e trazendo lembranças de outros tempos. Amores fracassados, amigos que já partiram ou colegas que abracei um dia e nunca mais os vi. Enquanto isso, o meu semblante cai, uma das minhas mãos vai encontro do meu rosto e eu revivo novamente todas as lutas que travei; sonhos incompreendidos que não sei bem aonde me levaram. Acabei só, entre quatro paredes repletas de estantes com livros velhos que acumulei ao longo da vida. Uma foto de um rosto que ninguém mais se lembra e outra de um antepassado que nunca vi. Tudo que tenho está velho e cheira a mofo. Para onde quer que eu dirija os meus olhos tudo se transforma em nostalgia. Saudade e fado duas palavras verdadeiras para se descrever a minha condição como ser humano.

~ por miguelwest em 23 de Setembro de 2008.

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