SEXTO CAPITULO


OBJETOS ÚNICOS

 

Subitamente sou despertado do meu devaneio pelo som do telefone. Era a esposa do amigo do Pedro, que ligou para me fazer um convite irrecusável: expor algumas de minhas pinturas na sua galeria e, embora não tenha demonstrado, fiquei extasiado com o convite inesperado e a possibilidade de um recomeço bem sucedido. Combinamos de nos encontrarmos no galeria, lá Chiado, dentro de aproximadamente dois dias, pois ainda tinha que organizar o material para ser exposto e selecionar as telas mais significativas, já que possuo uma quantidade um tanto numerosa,s se bem que o portifólio feito meses atrás me ajudaria e muito a escolher as pinturas mais adequadas para serem expostas. Levantei-me subitamente, com animo revigorado e uma alegria latente, que mal conseguia disfarçar. Durante todo dia me detive ao trabalho minucioso de seleção e reparos, pois algumas telas precisavam de alguns retoques, devido ao desgaste do tempo e as muitas mudanças que fiz ao longo do tempo. Vivia mudando de apartamento, porque viver sempre no mesmo ambiente me causava tédio, monotonia e desolação. Comecei a olhar as telas inertes à minha frente e um frenesi tomou conta de mim, pois há muito tempo que não as admirava.
Observei-as demoradamente e sem pressa, pois cada uma delas retratava uma historia singular que tinha a magia de me transportar para outros tempos, vidas, sonhos, enfim, para o meu refugio sagrado: minha destemida imaginação. Pela primeira vez reparei que ao longo dos anos cada uma delas variava e muito de tonalidades, revelando o meu estado de espírito. Tive vários períodos: o transcendental, o urbano, verde amarelo e o período negro. Todos eles dentro de uma linha de pensamento cubista com mistura de um leve toque expressivo. As minhas primeiras obras foram em aquarela, mais tarde tentei por varias vezes pintar a óleo e não consegui, pois o cheiro da tempera e o tempo de espera me deixava sempre impaciente, me fazendo mudar de idéias. As vezes começava uma paisagem que acabava se formando em alo completamente diferente da minha idéia inicial, tanto era o tempo que eu tinha para tentar finalizar minha primeira forma de pensamento, antes que a tinta secasse. Certa altura entrei numa loja dos 300 em Valongo e numa das prateleiras encontrei uma embalagem com tintas acrílicas e decidi comprar para ver o que acontecei, pois também vinha com uma pequena tela e instruções de secagem rápida, fato que me chamou a atenção, pois um dos maiores problemas que enfrentei com relação as pinturas, era a demora da secagem. A partir dai dediquei-me de corpo e alma a pintura acrílica e fiz assim algumas das minhas melhores obras, pois me adaptei muito com o processo dessa técnica.

Enquanto estava retocando uma tela reparei num pequeno livro caído num canto; debrucei-me para pegá-lo e percebi que tinha por titulo “À hora dos assassinos”. Era um estudo de Henry Miller acerca do poeta Rimbaud. Recordo-me perfeitamente do dia e do lugar que comprei. Na época namorava uma moça brasileira que era de São Paulo, precisamente da cidade de Diadema. Comprei esse livro numa pequena banca de jornal junto ao terminal metropolitano que faz esquina com Avenida Kennedy e com Rua da Conceição. São estes pequenos objetos simbólicos que trazem ao meu cotidiano alguma alegria. Acendo um cigarro e com um leve sorriso releio algumas passagens que tinha deixado sublinhadas em vermelho: “Um gênio a procura de emprego: eis aí uma das visões mais tristes deste mundo. Não se encaixa em lugar nenhum, ninguém o quer. É desajustado, diz o mundo”.
Isso é uma verdade incontestável, pois tanto Henry Miller quanto Rimbaud foram dois seres incompreendidos no seu tempo e desprezados por a sociedade, mas acabaram por tornarem se imortais por aqueles que em vida nunca os compreenderam. A vida de artista é mesmo assim, nem as próprias mães chegam a entender seus próprios filhos, quanto mais à própria sociedade. Vivemos como na corda bamba e tudo o que dizemos parece absurdo. As nossas palavras ou jeito de vivermos nunca se encaixa com os padrões desta ou daquela sociedade. As minhas irmãs nunca estão de acordo com meu modo de vida e estão sempre me cobrando uma vida estável ou em família. Acho que, de preferência, rodeado de muitos filhos. Não conseguem entender que sou diferente e não é porque queira o deseje, mas simplesmente por não poder evitar de ser assim. Este é o meu jeito e assim foi constituída a minha personalidade, sendo assim, para evitar maiores confrontos, evito conversar sobre mim mesmo. Quando alguém me pergunta como estou, digo sempre que tudo vai bem. Saio discretamente e caminho sem destino de um bairro para outro sem pedir licença. O meu segredo é não ter segredo nenhum e gosto de ter a plena liberdade de não ter que dar satisfações aos demais que me observam. Já não tenho paciência para nada. Afinal de contas o que a grande maioria das pessoas quer é saber é se estamos em uma situação ruim, pois adoram ouvir lamentações. Se me predispusesse a confessar as minhas culpas e infortúnios, acabaria por dar asas às suas imaginações e os fazê-los denegrir a minha imagem, então uso sempre uma palavrinha que trago sempre comigo e a repito com freqüência: BASTA, que quando não é respeitado se transforma em um diálogo bem acalorado, pois surgem ai às oportunidades de invasão, que não tolero e passo para a ignorância verbal bem como acusações infundadas: tu isto, tu aquilo e é por ai que surgem à pequena bola de neve que vai crescendo e derrubando tudo que encontra pela frente inclusive o respeito que possuímos pelas pessoas. Gosto muito de um ditado popular que tem seu fundamento: “O silencio vale mais que mil palavras”.

Coloco o livro sobre a mesa e pego de novo no pincel para retocar a tela ‘O Café A Brasileira’, que esta a minha frente, pedindo por um toque e retoque. Pintei-a no ano de 2003, no período que estava para me divorciar. Esta tela traz consigo uma longa historia: alguns anos atrás a vendi a um senhor que é proprietário de um estabelecimento de Antiguidades em Alfama e também é pintor. Quando voltei do Brasil fui ter com ele e pedi que gentilmente me trocasse por outras duas, explicando que tinha certa admiração por ela. Ele conhecia-me bem, por isso não ficou de mal comigo e aqui esta ela comigo, pois tem um valor afetivo inestimável para mim. Não a vendo mais por preço nenhum e só a exponho porque me pedem, senão, nem saía da minha residência. Há objetos que são únicos e intransferíveis, os quais jamais conseguimos nos separar deles e este é um destes objetos que sinto que fazem parte de mim.

Dentre tantos momentos vividos, tenho um que guardo com muito carinho por ter sido intenso e significativo, não que os outros não tenham sido, pois cada um deles, na sua particularidade, tem um significado único e particular. Bem, mas voltando ao assunto, recordo uma época, acho que por volta do mês de março, no colégio em que era preparado uma festa em homenagem a São José. Eu Deveria ter os meus 12 anos quando fui convidado a participar de uma peça de teatro, embora o meu papel era pequeno, mas nesse momento eu nem me recordo muito bem o que ia representar, mas o que verdadeiramente me marcou foi uma sena bastante inusitada: estava sentado na platéia enquanto esperava por a minha vez para atuar e ao meu lado estava uma bela jovem com uma fita lilás em forma de um laço sobre os seus cabelos loiros, detalhe que me chamou muito a atenção. Como não conseguia parar de olhar para ela, acabei por iniciar um hesitante monólogo, que viera a se transformar em um empolgante diálogo minutos depois, interrompido de vez em quando por sonoros shhh, dos que queriam prestar atenção no contexto da peça, o que nos causava risinhos contidos, para não aumentar a fúria dos expectadores. No fim da peça todo mundo foi convidado pelo senhor padre para um lanche. Ela também veio acompanhada por seu pai. Conversamos um pouco mais e acabei por memorizar seu nome: Dalila. No fim percebi que ambos tínhamos sentido algo um pelo outro, pois antes de se despedir de mim, levou as suas mãos ao cabelo, retirou a fita e me ofereceu. Desde ai, nunca mais a vi, mas aquela fita tenho guardada dentro de um caderno ate hoje. Nunca consegui me separar dela devido ao valor sentimental que representa para mim. Não tenho o habito de colecionar nada, mas admiro os que têm, apenas guardo as coisas do coração, aquelas que mexeram de alguma forma comigo. Sei que por entre esses pequenos objetos há algo inexplicável como um segredo, uma historia, um sorriso ou um olhar que se torna imortal. Algumas mulheres acham que a grande maioria dos homens não se apega as coisas do coração, mas essa não é a única verdade absoluta. Eles se não demonstram a importância devidas que essas lembranças representam para poderem prosseguir em frente, mas as mantem guardadas em um lugar de difícil acesso, para não virem a tona com freqüência. É um tipo de camuflagem que usamos para nos proteger. Comigo também não é diferente e eu também utilizo esse tipo de artifício para poder continuar o meu caminho, sem nunca anular o meu passado, afinal, “o nosso presente só pode ser o repensar do passado para melhoria do futuro”.

Não adianta virarmos as costas ao passado, mais cedo ou mais tarde ele nos persegue. Quando ficamos velhos tudo a nossa volta passa a girar em torno do passado. A memória é o melhor dos dons que Deus dispensou aos homens e é o que os difere dos seres irracionais. O que seria do ser humano se não tivesse memória? Talvez ainda estivéssemos no tempo das cavernas. Este é único legado ou arma capaz de nos elevar e nos fazer denunciar os males do mundo. Os filósofos dizem e com bastante racionalidade: “penso, logo existo”. Nesse caso, se eu penso, eu memorizo, eu sonho, eu crio e creio, por isso, indubitavelmente, o meu viver será registrado por todos aqueles que virão depois de mim. Os que me são próximos não me vêm como sou, me tornei invisível para eles devido ao choque de idéias que gero quando os faço pensar e os obrigo a refletir sobre problemas sociais e sobre assuntos diversos lhes são inatingíveis. A grande maioria não querem ser acordados do estado de inércia ao qual estão condicionados muitas vezes até pelo próprio meio em que se desenvolveu, estão presos as suas idéias conformistas que lhes dão “segurança” para viver mediocremente dentro de si mesmos. Não os censuro por isso, mas sei que posso fazer algo por aqueles que almejam, desesperadamente, compreender o que se passa no intimo das fronteiras que nos separam da ignorância e do individualismo humano. Qualquer ser humano deveria tentar compreender este lema budista, que a vida de cada um de nós é composta por estas duas ações: Miséria e ignorância. Se não conseguimos enfrentar estes dois grandes obstáculos jamais poderemos saber qual é o verdadeiro significado da vida, porque em parte eu creio, que os grandes males do mundo venham também daí.

Não sei bem ao certo em que ponto o meu individualismo deu lugar ao meu altruísmo, mas penso que foi durante a expedição pela América latina, ao ver a decadência político-econômico que assolou Buenos Aires anos atrás. Foram cenas chocantes que presenciei. Era uma manhã de domingo quando me dirigia a estação de metrô e repentinamente, uma multidão se fez ouvir a poucos metros. Eles se destinavam ao comercio mais próximo em busca de bens essenciais. Saqueavam açougues, supermercados e tudo que lhes fornecessem alimentos. A cidade outrora turística se encontrava caótica. Diante desta situação meu coração batia aceleradamente, temendo pela minha própria vida. Ao mesmo tempo sentia-me solidário para com as pessoas que enfrentava tamanha crise. Devido à paralisação e sem meios de transportes alternativos, telefonei para casa de uma amiga que tinha conhecido em Espanha alguns anos atrás e como ela mora próximo dali, cerca de um ou dois quarteirões, pedi ajuda e ela se prontificou a vir ao meu encontro. Já de volta a segurança da sua casa, um turbilhão de pensamentos e emoções conflitantes me invadiram de tal forma que passei horas a fio tentando entendê-los. Depois do momento conflituoso viera os questionamentos: como um país de uma política ate certo ponto estável, poderia entrar em tamanho colapso? Após um pouco mais de reflexão, entendi que até certo ponto globalização estava por trás de tamanha ruína. O que a priori vem com uma linda filosofia de desenvolvimento e crescimento simultâneo entre diferentes classes sociais, traz consigo o mecanismo de enriquecimento demasiado dos que já estão no topo da pirâmide social. Em que bases consistem a globalização senão no beneficio e interesses dos donos do mundo. O ser humano é demasiado interesseiro para poder compartilhar alguma coisa com o seu semelhante ou com quem quer que seja. O exemplo disso esta patente aos nossos olhos, quando os americanos invadiram o Iraque se desculpando da pior forma possível e vergonhosa. Ninguém conseguiu lhes fazer frente, para lhes dizer basta. Todo mundo sabia que seu o único objetivo se centrava nos poços de petróleo, contudo milhares de inocentes sofrem ate hoje as cicatrizes dessa guerra e não é de admirar que o povo árabe se revolte e se defendam contra seus invasores como podem. Eu também faria o mesmo por minha nação, lutando com todos os meios que tivesse ao meu alcance, mas enfim, este mundo no qual vivemos nos transforma em autênticos cegos, surdos, mudos e incapazes de fazer frente às injustiças, principalmente quando estas não nos atingem diretamente.

O mundo caminha para o precipício e o aquecimento global assusta-nos, mas os que têm o poder em suas mãos nada fazem para minimizar tais danos. Na televisão a mídia bombardeia-nos constantemente com estas noticias e eu me interrogo se é com objetivo de nos conscientizar. Acho que nos encontramos de mãos atadas e a nossa voz não consegue submergir. Existindo apenas um grupo aqui e outro ali, mas eles não passam de um punhado de corajosos, tentado fazer frente contra um sistema corrompido mundialmente. É urgente despertar antes que seja tarde, mas é lamentável que para podermos despertar, atualmente começamos sempre por cima, quando na verdade deveria começar por debaixo, como quem lança a semente sobre a terra e espera pacientemente o desabrochar.

Existe uma musica portuguesa, cuja letra diz o seguinte: “… não me venha pedir contas… vocês fizeram o mundo assim…”. Por este caminhar o único legado que vamos deixar para os nossos filhos, será um álbum de fotos antigas e nada mais do que isso, ou talvez quem saiba pedras e ferros contorcidos. O povo esta cansado de mitos ou de palavras repetidas que não os leva alugar nenhum. Porque as palavras? Que levem-nas o vento, mas ate que ponto o vento terá capacidade de se transformar em ação? A ação gera ação, mas as palavras nada mais são do que meras palavras. O vento vem e vai e a única ação que se tem conhecimento atualmente é a da palavra destruição. Há palavras que nunca foram escutadas ou lidas em silencio, pois se tivessem sido, por certo haveria mais riqueza e intelecto nas pessoas. Que é feito da palavra esperança? Acredito que um dia o vento nos pegará de surpresa, mas só espero que não venha a ser tarde demais. Deixemos de palavras e passemos das palavras às ações, pois só assim, as nações podem obter o devido progresso.

continua…

~ por miguelwest em 23 de Setembro de 2008.

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