SEGUNDO CAPITULO


 

SONHOS ADIADOS

 

Atualmente ando sempre com pouco dinheiro que mal dá para comprar um pincel, todos eles estão velhos e gastos. As minhas tintas se acabaram; só me restou uma pequena caixa de aquarelas e foi assim que tudo começou: fiz a minha primeira exposição de pintura na Vila Beatriz na cidade de Ermesinde conselho de Valongo. Aquela exposição me fez acreditar numa possível carreira artística, pois das vinte telas expostas vendi 12. Nada mau para um pintor desconhecido, que chegou a ter no jornal da região uma pequena coluna em sua homenagem. Os anos passaram e pouco ou nada mudou. A minha vida se resume a isto! O resto dela são apenas memórias sobrepostas umas as outras. Às vezes tento idealizar novos vôos na esperança de que a vida me possa sorrir, mas o desânimo em mim é constante! Por mais que tente, nada de extraordinário acontece, mas em comparação com os demais homens, ate que não posso me queixar da vida, pois já estive em vários países, falo quatro idiomas, embora não saiba escreve-los. Na minha terra dizem que sou um analfabeto; em outro país, um intelectual. Na América do Sul, por exemplo, o indivíduo que fala mais de um idioma é levado muito em conta; ao contrário da Europa, que já não vê encanto em mais nada. A conclusão disto tudo é na verdade um disparate, mas o ser humano é mesmo assim e quanto a isso nada tenho a declarar, já que cada cultura tem o seu modo de julgar. Em Portugal tal como no resto do mundo as pessoas têm o grande defeito de imortalizar seus artistas somente após sua morte, ou então se o artista sai do país e faz carreira lá fora, em uma terra longínqua. Isso tudo é uma grande ironia. É necessário povoar terras estranhas para poder torna se, aos olhos de todo mundo, um herói nacional. Surgem então as festas, homenagens, condecorações e com um pouco de sorte o artista torna se embaixador das nações unidas, recebendo, da noite para o dia, seu primeiro título.
Recordo-me também, que noutros tempos quando era bastante religioso, sempre que viajava uma multidão de irmãos vinham se despedir e ao meu regresso, faziam festinhas de boas vindas, mas tudo mudou! Após o meu divorcio, no momento em que mais precisei de um ombro amigo, um por um virou-me as costas, porque eu não me encaixava mais nos seus padrões sociais. Foi como se eu tivesse uma doença contagiosa, fato que me fez parar e repensar sobre valores pré-estabelecidos e por mais que repense não consigo encontrar uma resposta para certos comportamentos; o que me leva a um estado de constante questionamento. Não consigo enxergar o que foi que deu errado ou a exatidão do ponto em que falhei, coisas da vida! Acho que é melhor mudar de assunto, pois todas essas interrogações sem respostas me levam a um estágio impreciso de insatisfação e, mais uma vez, de total desanimo. Ah, mas antes de iniciar meu próximo raciocínio, acho importante ressaltar que um, apenas um único irmão permaneceu sempre ao meu lado. Um irmão vindo de terras estranhas em busca de algo que lhe faltava e veio para Portugal tentar uma vida melhor e vivia na linha de Sintra para os lados do Cacem, juntamente com um grupo de brasileiros. A maioria deles clandestinos, mas que aos poucos conseguiram se legalizasse, devido a acordos entre as duas nações. Ele trabalhava no açougue do Carrefour. Era um moço humilde e de boa índole, talvez por ser temente a Deus e raramente perder um culto. Sempre que podia ele acompanhava a mocidade para congregarem em outras cidades ou vilas portuguesas. Acompanhei todo seu progresso espiritual e juntos enfrentamos as adversidades da vida; éramos praticamente inseparáveis e nos reuníamos por horas a fio, a conversar sobre a obra de Deus. Ele permaneceu aqui por dez anos e por fim voltou para o Brasil, casou com uma bela jovem descendente de Japonês, abriu um negócio bem lucrativo e esta à espera do seu primeiro filho. Às vezes falo com ele por MSN ou telefone e fico a pensar o quanto sofreu, mas mesmo assim ele tem uma disposição invejável para enfrentar as adversidades impostas pela vida. Será que algum dia vou conseguir ter força, para fazer frente a tudo que me acontece? Nós homens somos feitos de uma massa imaleável, seguindo padrões impostos por uma sociedade corruptamente formada. Durante toda a nossa vida escondemos a nossa verdadeira identidade, mostrando ao mundo um lado inexistente, que seja aceito. Ainda vivemos numa era que a palavra tabu esta sempre evidencia nas nossas vidas. Não podemos ser nós mesmos, nem podemos dizer livremente o que pensamos, um homem tem que manter a sua postura, ser macho, ser bruto, ser juiz mesmo que tenha que julgar sem causa. Pobre do homem que escreve um poema, que canta ou dança numa praça. É crime ter sentimentos e expressa-los em público, pois podemos ser tachados de loucos. Se isso serve de consolo, com o tempo que perdemos na tentativa de sermos quem não somos, aprendemos a perceber que o orgulho e os preconceitos nada mais são do que ignorância em não saber lidar com o desconhecido; aprendemos que, apesar das diferenças, somos constituídos da mesma matéria orgânica, o que nos torna IGUAIS!

Por falar em tabus, comportamento e sentimentos reprimidos, antigamente era comum um indivíduo casar-se com uma jovem de menos de 17 anos, mas hoje em dia se tal acontece é caracterizado de pedófilo. Mais uma vez nos deparamos com padrões sociais pré-estabelecidos, embora todo mundo seja consciente da atração de uma jovem por indivíduos mais velhos ou vice-versa. Sempre foi assim na historia da humanidade e sempre será. Quando dizem que estamos a evoluir, não duvido, mas existem tantas coisas inexplicáveis e retrógradas impostas por uma sociedade que vejo essa evolução de forma unilateral e um tanto inatingível. Acredito num comum acordo entre ambos, no amor ou ate mesmo numa paixão casual, mesmo que tais relações venham a esfriar com o tempo. O grande perigo de tentar forçadamente a nos encaixar nesses padrões, é a frustração de ver sua vida se desmoronar bem diante dos seus olhos, pois neste presente momento, certamente, há milhares de casais a divorciarem-se. Então, para quê tanto murmúrio? Ou porque será que nos deixamos levar por tais imposições? Tabus e nada mais que tabus imposto por aqueles que se julgam capazes de ir alem de seus limites. Desculpem-me o plural no masculino, mas aonde nos leva tudo isto? Será que nós homens, verdadeiramente, aparentamos ser o que somos? Durante toda a minha adolescência vivi num colégio católico, cheio de regras e tal como as regras, mais uma vez, os malditos tabus. Tínhamos hora para tudo: dormir, acordar, comer, brincar, trabalhar e dai por adiante. No que diz respeito à sexualidade, é simples: ela não “existia” e devido a sua “inexistência”, por ser considerada uma necessidade primordial, muitos jovens buscaram na homossexualidade a satisfação das suas necessidades; outros se desenvolveram recatado. Atualmente, parte desses jovens são pais de família, com bons empregos e boas esposas que jamais suspeitaram que o homem que com que ela se deita, uma vez teve possíveis afinidades. Pela experiência que tive no colégio fiquei consciente que 60 por cento dos homens tem essa tendência, devido ao desejo reprimido, mas eles seguem o caminho que dizem ser o que leva a tão mencionada salvação. Tememos a reação do mundo inteiro, escondemos atrás de leis e ordens que nos sufocam. Queremos liberdade, mas tememos anarquia, de forma que acabamos por aceitar os padrões impostos por aqueles que estão acima de nós. Todas as leis existentes têm um só fim: dominar. Quem se afasta da lei, imediatamente é excluído da sociedade. Por causa disso, entregamo-nos de corpo e alma a religião ou a política, embora saibamos que qualquer crente que preze a sua doutrina, jamais envereda por outros cominhos. Tudo que é demasiado racional anula a existência divina, dando sempre prioridade a lei do homem, a qual o céu e o inferno não fazem parte. Até os anos setenta os sacerdotes apregoavam nas igrejas as barbaridades vindas do lesto, afim de que o seu rebanho não se desviasse das suas veredas. Que saudade tenho, de quando os “lobos” comiam as criançinhas. Esta, é a mentalidade dos que deturpam a própria lei para seu beneficio, caracterizando as mentes mais frágeis, porem o ser humano ama a ordem e sem ela fica a deriva, por esse motivo não nos importamos em ter que pagar impostos, sermos escravos dos que estão acima de nós, mas ate quando? Já que um dos países que se diz ser o mais democrático de todos é na verdade uma farsa. A finalidade da democracia consiste em liberdade de opção, respeitando a opinião de cada um e vivendo em harmonia, entretanto, se alguém preferir uma outra ideologia contraria a deles, imediatamente é perseguido. Tudo isso acaba por se tornar um paradoxo de contradições, mas quem sou eu para por em causa essa mesma democracia? Entre os milhões, que conseguem visualizar essa dissonância, eu serei a que menus se destaca, pois o que eu penso pouca ou nenhuma importância tem. Não sou político, nem clérigo, sou apenas um cidadão a deriva, que povoa essa nossa aldeia global e na minha concepção de artista, a palavra vida e a palavra morte simbolizam apenas uma linha reta, ou na menor das hipóteses, uma linha totalmente curva, onde muitos se perdem, ao possuírem visão delimitada do que há a sua frente. Tudo quanto tenho que executar eu o faço da melhor forma possível, para ter como me aproximar da perfeição, mesmo que seja nas mínimas coisas. Isso me ajuda a conhecer os meus limites. A vida para mim consiste em atos, mesmo que sejam pequenos e singelos, afinal de contas tudo o que se cultiva e se semeia no aqui e agora, são os frutos do que vamos colher no futuro. Se observarmos os índios, perceberemos que eles têm as suas próprias leis, que nos são totalmente estranhas, mas que fazem todo sentido para forma de organização tribal em que estão habituados a viver e pela sua filosofia de vida eles são capazes de viver, matar e ate mesmo morrer, sem que um desses atos sejam denominados “crime”.

Por falar em índios. Faz alguns anos que estive no Paraguai na cidade de Asuncion, no qual convivi com vários residentes, dentre eles alguns índios guaranis. Quando estava por lá senti que no ar havia desconfiança, insatisfação e uma ditadura disfarçada de democracia. Os antigos ditadores se vestem hoje de cordeiros, o país está totalmente estático, parado no tempo e ninguém há entre eles que eleve a voz. Não há trabalho, nem recursos e os edifícios de grande beleza estão degradados, só a repartição publica é que sobrevive, o demais é uma cidade em decadência, onde um povo amável vive entre o fio da navalha. Este foi o povo que tentou ao longo da sua historia erguer-se, mas devido à cobiça, acabaram por ser saqueados. O Paraguai é o exemplo de um entre tantos países que se diz democrático, afinal contas a democracia esta na moda, mas é lamentável que aqueles que têm poder nada façam. A verdade é que tudo aquilo que vemos e não o que esta escondida por trás de uma camuflagem histórica, então fale-me da verdade, para que eu seja verdadeiro, fale-me do que é racional e eu educarei os que anseiam por ser educados. A doutrina dos homens consiste em amar e ser amado. Mas ate que ponto o amor é verdadeiro? Se oscilarmos entre dar e receber, o amor nada mais é do que um enigma que devasta por dentro. Amamos porque não queremos estar sós, mas a grande maioria dos homens fabrica o seu próprio amor, mediante as suas aspirações. Um capricho insaciável e devorador é tudo o que os envolve na sua mas pura e visível essência humana.

Há um privilegio em ser rico e se alguém diz que a riqueza não trás felicidade, não se iluda, a riqueza não é felicidade, mas sim a rampa de partida para muitas felicidades. Se nos contentarmos com um miserável ordenado, que tipo de homens nós somos, senão hipócritas? Todo mundo anseia por ser rico, ou possuir algumas riquezas, ter uma bela mansão, dois ou três carros numa garagem bem espaçosa, viajar por lugares exóticos, vestir-se bem, comer do bom e do melhor, fazer academia ou ate mesmo uma cirurgia estética e por fim, ter sempre dinheiro no bolso para realizar os seus desejos e caprichos. Ao longo da minha vida deparei-me com pessoas que afirmaram categoricamente que o dinheiro não trazia felicidade, algumas delas viviam em decadência, fazendo me recordar uma musica Brasileira, cuja letra diz o seguinte: “Tu queres sair do gueto, mas o gueto esta dentro de ti”. Tudo isto não é mais do que o produto, do meio e do espaço que se vive, a cultura e falta dela leva qualquer individuo a acomodar-se com a sua miséria interior. Como é possível que o ser humano desista tão facilmente dos seus sonhos? Culpo em parte a mídia, que nos bombardeia constantemente com as ideologias capitalistas da classe dominante e com uma diversidade de fictismo tão imensurável, que causa inveja a muitos cineastas. Cada um de nós tornou se escravo do próprio sistema de modo que à imagem que julgamos ser nossa, pertence aos nossos opressores. Ignoramos e não temos coragem de debater tais assuntos, talvez dentro de vinte ou trinta anos o ocidente desabe da noite para o dia, mas numa sociedade materialista ou consumista, o que importa é o conforto. Os dias passam assim a correr e quando paramos para pensar um pouco sobre a vida, acabamos por dizer as mesmo às coisas. Que legado deixo para meus filhos e netos? Essa é uma questão que sempre embala o meu sono turbulento. Fecho os olhos e tento adormecer em meio ao silencio da noite, que geralmente tranqüiliza o meu espírito inquieto e me leva por dentre as veredas da solidão em direção a casa dos meus sonhos, ate que a luz de um novo e almejado dia se rompa sobre meu quarto e me desperte para prosseguir a minha caminhada.

RIO TEJO

Sete de janeiro e o céu está bem límpido. Sei que preciso sair para procurar trabalho, mas como tenho poucos estudos, sinto que vou ter um dia complicado pela frente. A minha idade também não me ajuda em nada e eu constato que pouco ou quase nada esta ao meu favor. Hoje em dia a preferência de trabalho é dos jovens. Devido à inexperiência deles a mão de obra se torna bem mais barata e os mais velhos são vistos como uma despesa a mais, um tanto desnecessária. Eles só dão “trabalho” em vez de trabalhar. É o que a maioria dos empregadores pensa.
Tomo o metro com destino ao rossio e entro no café Nicola. Os empregados encontram-se numa constante azáfama e é sempre assim na primeira semana do mês. Hoje ate que tive sorte, pois consegui uma mesa bem na esplanada, localizada estrategicamente com vista para a praça. Peço um café e um copo de água; retiro de um dos meus bolsos um pequeno bloco onde registro meus apontamentos e começo a desenhar o que me rodeia.
Mais uma vez sinto que a arte está no meu sangue e percorre as minhas veias de forma tão intensa, que sinto uma plenitude constate invadir o meu ser. É difícil explicar essa sensação com palavras, mas é como se só o ar que respiro não fosse o suficiente para me manter vivo. Observo a cidade num constante rodopio e subitamente vejo passar um amigo de longa data, o Pedro. Ele repara em mim e logo vem ao meu encontro. Cumprimenta-me enquanto se assenta mesmo a minha frente e pede ao garçom um café. Conversamos um pouco sobre coisas corriqueiras por aproximadamente vinte minutos. De um momento para o outro seu telemóvel toca, ele atende e diz que tem que sair com urgência, para entregar um projeto de arquitetura lá para os lados do Poço do Bispo. Antes de sair ele me da um cartão com seu contato e pede-me que lhe ligue a fim de marcarmos um encontro para discutirmos um possível projeto artístico em uma de suas obras arquitetônicas.

Fico por ali mais quinze minutos e aproveito para dar uma olhada nos anúncios do “Noticias da Manhã”, retiro alguns apontamentos e vejo que uma empresa precisa de telefonistas. Por incrível que pareça é mesmo aqui no rossio. Em algum ponto do anuncio, vejo que as inscrições estão marcadas paras às nove horas. Automaticamente verifico as horas no meu relógio de pulso e percebo que ainda há tempo para tentar a sorte. Chamo o garçom e pago o café. Saio e atravesso a praça do rossio, mas reparo que o estabelecimento ainda esta fechado, contudo, algumas pessoas já se encontram a porta. Fico entre os primeiros e penso para comigo mesmo: acho que foi o Pedro que me trousse um pouco de sorte.

Enquanto espero, a minha mente viaja e, sem que me aperceba, me vejo a pensar em voz alta. Sorriu de me mim mesmo e penso que devo ter tenho algum problema psicológico: Deus meu, devo estar é a ficar louco! Tento conter-me para não transparecer o meu sorriso, mas sei intimamente que é devido à pressão a que todos nós nos submetemos atualmente. Olho para trás de mim e reparo que a fila vai se estendendo por vários metros, enquanto uma nuvem negra aos poucos sobrecarrega o ar. Vejo que nos dias de hoje todo mundo se encontra desesperado a procura de uma oportunidade de trabalho e nestes últimos anos a situação tem estado cada vez mais difícil. Parece que todo mundo decidiu vir viver nos grandes centros urbanos e a cidade de Lisboa não foge a regra. Enquanto espero, sobre mim se abate um silencio mórbido de forma que a minha mente fica completamente perturbada e o que me apetece mesmo é desistir, mas só faltam poucos minutos para a entrevista e vale a pena tentar mais uma vez, afinal de contas, como já estou aqui, não vai me custar nada. Já vai para mais de um ano que ando nesta vida e infelizmente todas as portas permanecem fechadas. Acredito que a minha idade avançada torna ainda mais difícil a possibilidade de encontrar um bom trabalho. Os que me observam diariamente até já dizem que o que eu quero mesmo é não fazer nada e que não falta trabalho para quem realmente quer trabalhar, mas quando falam comigo usando estes termos a minha resposta é bem direta: – Tem algo de bom para eu fazer? Se não tem é melhor cuidar da sua própria vida.

Sem respostas eles encolhem os ombros e se afastam para nunca mais voltar. São homens carregados de palavras, mas sem ações como a maioria dos seres humanos, ou devo dizer desumanos? Não sei bem o que acontece dentro dessas mentes “racionais”, pois no fundo não consigo diferi-los dos demais animais irracionais, quando cometem essas atrocidades. Vivem suas vidas de forma monótonas e tristes, passam todo tempo reparando-nos outros, a fim de terem algo para falar e não se dão conta da inutilidade das suas existências, que persiste em lhes manter no vácuo onde só conseguem escutar o seu próprio eco sinistro. Criaturas amargas desde o nascer até ao por do sol, à noite ficam a sós e adormecem sempre desesperados ou ansiosos por um novo dia a fim de espalharem suas flechas venenosas sobre o primeiro que cruzar pelos seus caminhos.

O ponteiro do relógio marca nove horas da manhã, as portas do estabelecimento se abrem e um por um, conforme a sua vez de chegada, vai entrando. Num dos balcões encontra-se um moço com os seus vinte poucos anos, vestindo um terno azul escuro e gravata com tons de rosa. Ele gentilmente me faz sinal e manda-me sentar. Preencho uma ficha, respondo algumas perguntas que já me habituei a responder e diz-me para aguardar alguns dias. A entrevista não durou nem quinze minutos e como não tenho mais nada para fazer, vou ate a Rua Augusta que fica a dois passos daqui.
Enquanto perambulo por lá percebo que estão a retirar os enfeites de Natal e só ai reparo que este ano que passou fizeram uma linda decoração. Vale a pena vir ao centro da cidade durante a noite para ver os efeitos da quadra natalícia, pois o espetáculo de luzes é admirável. Parece que a cidade ganha outra vida. Muito antes de chegar ao fim da rua também vejo que os andarilhos, camelôs e artistas de rua começam a chegar e montar as suas bancas. Outros se a sentam no canto da calçada com pequenas aquarelas retratando recantos de Lisboa. A grande maioria deles vive em quartos alugados e outros acabam por viver na rua, devido as suas economias serem tão escassas que mal dão para pagar um quarto e a cota exigida pelo município todos os meses para poderem vender suas obras na rua. Os magistrados não conseguem enxergar que os artistas são ícones de grande beleza. Sem eles a Rua Augusta seria apenas mais uma rua comercial. A única coisa que poderia atrair os turistas seria apenas o grande arco que faz divisa com a praça do comercio. Eu próprio cheguei a passar essas mesmas privações por algum tempo, a minha sorte foi ter conseguido um emprego que perdurou por cerca de 10 anos.

Olho ao meu redor e não vejo nenhum conhecido. Chego ao fim da rua, próximo ao arco que dá par a Praça do Comercio e mesmo a minha frente vejo que árvore de natal com cerca de trinta metros também já esta a ser desmontada. Caminho pela praça e me dirijo para o cais para ver o movimento do rio Tejo. Hoje ele corre lento, bem lento e é aqui que passo a maior parte de meu tempo, observando os barcos que entram e saem com destino a Almada e ao Barreiro.

Do Rio vem uma leve brisa trazendo consigo o vento do norte. Embora estejamos no meio do inverno, as chuvas não caíram com abundancia este ano. Já o ano que passou foi um ano de seca, tudo leva a crer que tem a ver com o efeito estufa ou talvez seja devido aos vários incêndios que ocorreram em todo país durante o verão. Não consigo entender como um país tão pequeno como o nosso, tenha tantos incêndios. Será que as pessoas estão a ficar loucas ao ponto de se auto-destruírem desta maneira tão cruel e ao mesmo tempo tão lenta? Sinto tristeza quando ligo o radio ou a televisão e vejo o meu país a perder o que de melhor tem, a sua fauna. A Caminhar assim não sei aonde isto vai parar, pois ora faz frio ora faz calor e tudo mudou. Como Camões escreveu num dos seus poemas: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. Se é que o ser humano se preocupa em mudar mesmo alguma coisa! Recordo-me dos invernos rígidos quando eu era mais jovem. Adorava ouvir o bater repetitivo da chuva sobre as vidraças e os estrondos contínuos dos trovões que encadeavam constantemente o meu quarto. Pela manhã o frio era de cortar a navalha e as roupas nos beirais ficavam rijas como postas de bacalhau. Confesso que havia alturas que ficava amedrontado, mas essas lembranças perduram dentro de mim ate hoje, como algo que jamais se apaga. Por mais que a minha infância tenha sido difícil, agarro-me a ela com todas as minhas forças, porque foram momentos únicos que não voltam mais e sonhos e brincadeiras que não se repetem. Tudo passou extremamente rápido, embora nem tudo que sonhei se realizou, mas o pouco que consegui concretizar faz parte de quem hoje eu sou. Atualmente sinto-me melancólico e deprimido ao mesmo tempo, não consigo deixar de pensar na vida e se penso é sempre com um leve pesar.

Olho o céu e ao longe vejo uma pequena nuvem distanciar-se tomando a forma de um cavalo alado. Desvio o meu olhar para um ponto remoto e sinto uma lagrima gélida percorrer a minha face ao repousar os olhos nas minhas recordações de infância. Instantaneamente, de súbito, sou desperto do meu devaneio por uma cena habitual: pobres desta cidade que pela manha vêm aqui repousar na relva de frente para o Tejo, perdidos entre o espaço e tempo, onde suas memórias são sempre desordenadas. Sinto profundamente que entre mim e eles não existe nada que nos diferencie. Fato que me leva a indagar se também sou um deles ou apenas um moribundo em busca de uma essência que lhe traga o verdadeiro sentido de ser e existir. Durante toda minha vida, tenho lutado contra todas as adversidades sem deixar que elas me rebaixem ou diminua a minha condição existencial para não vir a me sentir menor ou maior do que ninguém. Mais uma vez isso me leva a interrogar sobre o meu destino, sem saber se eu mesmo o escrevo ou se ele já havia sido prescrito por Deus muito antes de mim. Tento manter calma e viver cada dia como se fosse o primeiro, transformando o mal em bem e o feio em belo, mesmo que seja debaixo de muitas lutas e decepções, afinal, a vida é um só dia, porque dizem que antes de morrermos toda ela passa por nós como um filme repentino ate então nunca visto. Se isto for verdade, eu devo estar com os meus dias contados. Com tantos dissabores o que desejo é apenas partir, porem a morte não vem, mas sei que às vezes ela me observa e rir de mim, condenando-me a esta vida de errante. Desânimo e tristeza são tudo que me resta, caminho solitário por a cidade que um dia me recebeu de braços abertos, mas quem sou eu? Um homem invisível e nada mais do que isso, porque no dia em que eu partir, a terra vai continuar o seu giro e a lua entrará em quarto crescem por séculos e séculos. Cassiopeia, Orion juntamente com Vega tomaram seu curso ate que os homens as alcancem, já que a ciência se encontra em um caminho bastante avançado. Nas praças haverá crianças e velhos que juntos falarão as gerações seguintes sobre a palavra que sempre se renova. A palavra esperança. Pouco ou nada vai mudar: as rosas com o seu perfume e as andorinhas que todos os anos virão fazer os seus ninhos nos beirais sempre que chegar a primavera. Também haverá homens que terão coragem de lutar contra as desigualdades ou contra ditadores que insistirem em se levantar.

Acredito que sempre haverá guerras. A ciência se multiplicará tão rapidamente que a grande maioria dos homens não vai conseguir acompanhar tamanho progresso. Quanto à arte, provavelmente, ela será completamente virtual e pouco ou nada se fará dentro do universo cultural que se possa dizer que é algo novo. Eu, porem, voltarei ao pó, ate que um dia num ano ou século qualquer, o vento levará as minhas cinzas pelo universo e elas se juntarão a todos os que um dia partiram e juntos criaremos uma nova civilização mais racional e eqüitativa.

Bem, mais ainda estou vivo e tudo que me resta é apenas uma breve oração por meio de murmúrios e lamentos. Meu Deus deixa-me adormecer tranqüilamente, deixa-me viajar para alem das estrelas, no lugar que todo mundo acredita ser eterno. Se eu nunca chegar a ser lembrado, então que todo mundo saiba que eu fui apenas um entre tantos que tu criaste com a força do teu pulsante amor. Um dia, no lugar que se diz ser eterno, eu quero também invocar os espíritos dos grandes homens, para poder ter a força e habilidade de todos eles, a fim de compreender o porquê da minha singela existência. Tal como todos eles um dia entenderam o verdadeiro significado da condição humana: Gandi, Buda, Maomé, Luter king, Che, Jesus e tantos outros que contribuíram para o desenvolvimento e progresso das nações. Peço-te, Deus meu que nunca me desampares; vem e fortalece meu coração e em cada dia renova meu ser com toda a Tua sabedoria, da mesma forma que Tu compartilhaste com todos estes que um dia também te foram fieis e hoje habitam entre as estrelas.

Por fim faço minhas as palavras do filósofo e historiador Thomas Carlyle, que certo dia comentou: “A história do mundo é apenas a biografia de grandes homens”. Porque o resto é paisagem e nada mais do que isso.

~ por miguelwest em 23 de Setembro de 2008.

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