QUINTO CAPITULO


ESCUTAR EM SILENCIO

 

Alguns anos atrás tentei escrever a minha biografia, mas como dou muitos erros e não sei aplicar as formas gramáticas corretas, desisti ao fim de um tempo, afinal tenho poucos estudos, pois só cheguei a completar o oitavo ano. Tinha uma fobia comigo: não conseguia estar muito tempo em lugares fechados, pois isso me deixava inquieto e me fazia sentir-se um tanto perturbado. Assistir aulas em um ambiente fechado e formal me levava quase que ao pânico e os meus professores chegavam a ficar transtornados comigo. Quanto aos meus colegas de turma, adoravam-me, pois tinha sempre uma piada debaixo da manga. Não fazia por mal, mas às vezes ia longe demais, por isso estava sempre de castigo ou então era posto da porta para fora mesmo que aula tivesse acabado de começar. Isso me causava crises de risos e eu ria como uma desvairado ao ser levado pela auxiliar de educação ate a sala dela para receber uma bela lições de moral. Não sei bem porque, mas aprendi mais com elas nesse tempo do que com qualquer professor. As historias que elas contavam, faziam me ficar em silencio enquanto os meus olhos se esbugalhavam ao mesmo tempo em que sorriam de admiração e carinho por elas. Eram gente do povo, humildes e de pouca sabedoria. Tudo que sabia era genuíno e como eu nunca tinha vivido com meus pais, adorava escutar relatos de experiências sobre alguém que tinha uma família. Eram boas mães, ótimas donas de casa e trabalhadoras. Tinham mãos ásperas, rostos queimados pelo sol e pequenas rugas de expressão, que tinham uma beleza típica e popular para mim. Elas adoravam novelas, musica Pimba e o Quin Barreiros. Quando falavam ou se riam seus ecos se faziam escutar pelos corredores da escola. Quantas vezes elas corriam de um lado para outro, como crianças desengonçadas, para nos socorrer. Recordo-me com saudade de cada uma delas e ate hoje, seria impossível esquecer o rosto de alguma delas, mas por mais incrível que possa parecer, a grande maioria dos rostos dos meus professores se apagaram de minha memória para sempre. Por mais que tente não consigo me recordar deles, afinal de contas, eles entravam nas salas de aula, escreviam e expunham apenas à matéria que tinham que transmitir. Quanto a nós alunos, parecíamos robôs programados para aprender e dizer apenas um bom dia ou boa tarde. A única professora que me cativou, foi a professora de português do sexto ano. Ela deveria ter os seus quarenta e poucos anos, era loira com algumas mexas de cabelos brancos, tinha em torno de 1.70 de altura e era bem magra. Nesse ano que ela nos deu aulas, os meus colegas de turma disseram-me bem no principio que ela era muito ríspida e que não suportava barulho na sala de aula, mas desde primeiro dia em que ela pôs os pés na sala, ate o ultimo dia de aula, ambos mantivemos uma comunhão mutua. Posso não ter aprendido nada de português, mas a sua natureza cativava-me bastante, ela transmitia o conteúdo calmamente, relatava os assuntos dentro de uma linha de pensamento transcendental que dificilmente os adultos compartilham com os mais jovens e isso me fascinava. No ultimo dia de aulas ela ofereceu-me um pequeno radio portátil negro com auscultadores para levar comigo na minha primeira viajem que eu fiz pela Europa. Quando regressei de viajem fui na escola para rever, mas ela tinha sido transferida para outra unidade bem mais distante fora do distrito do Porto e desde essa época eu nunca mais a vi.

RETALHOS DA VIDA

Durante toda noite fui afligido em meus sonhos por imagens de infância. Como não conseguia dormir peguei um pequeno caderno e comecei a descrever, por alto, um pouco sobre a minha vida já que esta essa foi a única forma que encontrei passar melhor o tempo. Ao mesmo tempo em que as palavras iam começando a ser transcritas no papel, um emaranhado de lembranças invadiam a minha memória, então resolvi reviver um pouco a época conturbada em que vim ao mundo. Meu país ainda se encontrava sob o domínio de uma ditadura fascista, que forçou uma grande parte da população a viver em condições existenciais precárias. Juntamente com os meus irmãos acabei por enfrentar as fortes conseqüências desse período.
Em 25 de abril 1974, o regime de Marcelo Caetano foi derrubado pelas forças armadas e ele acabou por ser deportado para o Brasil, aonde veio a falecer em exílio. Em Portugal começaram a surgir novas idéias políticas, que geraram reformas constitucionais e deram fim à guerra de Ultramar, principiando a descolonização e independência de Angola, Moçambique, Guiné-bissau, dentre outras, mas o povo receando uma rebelião devido ao colonialismo que durou aproximadamente 500 anos, acabou por abandonar as colônias e imigrar para um país que até então pouco ou nada lhes dizia, gerando com isso uma crise a nível nacional. Quanto a minha família da parte materna ela é oriunda do centro de Portugal, precisamente do Ribatejo. Meu bisavô que era professor catedrático, por volta do ano de 1870, recebeu uma preposta de trabalho do estado para vir dar aulas na cidade de Lisboa. Deste modo ele e toda sua família fizeram as malas e mudaram para a capital do pais, onde passaram a residir em Campo de Orique, que por essa altura não passava de um pequeno vilarejo povoado por casas localizadas em volta do Cemitério dos Prazeres. Ali viveram aproximadamente por mais um século e como a vida lhes sorrio, ele pode por alguns dos seus filhos no Colégio dos Salesianos. O meu avô foi um dos felizardos que teve a oportunidade de estudar lá. Anos mais tarde terminou seus estudos na escola náutica e dando continuidade a sua carreira militar e por conseqüência viajou por todo mundo.
Em 1935 conheceu aquela que veio a ser sua esposa e com ela teve três filhos, duas moças e um rapaz que faleceu ainda jovem. Como meu avô era um pai ausente, suas filhas acabaram por se tornarem independentes muito cedo. Com poucos estudos e num país governado por uma ditadura fascista, minha tia imigrou para França em busca de melhores oportunidades de vida. Quanto a minha mãe, por aqui ficou e por falta de opção acabou como empregada domestica, mas certo dia fartara se de tudo e todos, conheceu um senhor que a levou para a prostituição e foi a partir daí que a sua vida entrou em declínio. Quando ela quis abandonar essa vida já a sua juventude tinha passado, então, na miséria total e com quatro filhos, ela acabou por ter que mudar para o Porto. Devido às más condições financeiras foi obrigada a viver num cômodo na zona da Ribeira. O prédio era demasiado úmido, velho e tinha cerca de aproximadamente 20 famílias que lá viviam e que também dividiam um banheiro sem chuveiro, fato que nos levava a utilizar a janela existente no quarto para despejarmos as nossas necessidades fisiológicas, já que a mesma era de frente para o rio Douro. Foi por essa altura, que pela primeira vez, recebi a visita do meu avô paterno, que tinha vindo da Suécia para nos conhecer, o que me pareceu indiferente naquele tempo porque só tinha dois anos de vida. Devido as condições do ambiente e exposto a umidade existente, acabei por contrair uma forte pneumonia, que me deixou hospitalizado por um período aproximado de dois anos. Já com quase quatro anos de idade e recém recuperado, minha mãe decidiu regressar a Lisboa.

Mais uma vez em Lisboa fomos viver para os Anjos e como ela ganhava pouco, nos deixava numa pensão enquanto ia “ganhar a vida”. Por essa altura éramos muito pequenos e cada um se virava como podia. Normalmente era o meu irmão mais velho que tomava conta de nós, mas já devem estar a imaginar como é uma criança de 12 anos a tomar conta de outras três: eu, a Susana e a Raquel. Por essa altura nós queríamos o colo materno e por ser mos tão pequenos e frágeis, chorávamos por tudo e por nada, incomodando os inquilinos da pensão. Certo dia as pessoas da pensão decidiram que não estavam para agüentar tal coisa e chamaram a policia enquanto a minha mãe estava fora e nos levaram para o orfanato da Mitra, que fica em Marvila. creio que por volta do ano de 1976. A nossa mãe ainda tentou, por diversas vezes, nos tirar de lá, mas foi tudo em vão, pois a vida que ela levava, de acordo com as autoridades, era uma vida que não dava estabilidade a uma família, uma vez que se submetia a prostituição para nos sustentar.
Uma das primeiras coisas que me recordo na Mitra é de que dormíamos todos em um grande dormitório. Meninos de um lado e meninas do outro. Para ir ao quarto de banho tinha que passar por um corredor no qual havia no chão um pavimento em vidro. Recordo-me que numa certa noite, enquanto me encaminhava para o quarto de banho, ao passar por esse mesmo pavimento, reparei que um dos vidros estava quebrado; senti certa curiosidade para ver o que havia, mas antes não tivesse espreitado, pois durante anos essa mesma visão me perseguiu. O que vi, foi nada mais nada menus do que um morto dentro de um caixão e ao seu lado uma viúva que o velava com prantos e lagrimas. A partir desse dia nunca mais fui o mesmo e a noite eu preferia urinar na cama a ir ao quarto de banho e assim fiquei até aos meus 15 anos. Por mais que alguém tentasse acordar-me durante a noite, eu não conseguia evitar. Há coisas que nos acontecem e que nem mesmo sabemos o porquê.

Certo dia a minha mãe foi me visitar e está foi à única vez em que me recordo de tê-la visto. Confesso que tive medo dela, acho que foi devido ao fato de ter ficado ali sempre fechado e sem contacto algum com o mundo exterior. Era moço e vivia apenas com moços, que como eu não tinha quem pudesse cuidar de nós, éramos apenas crianças abandonadas num lugar que o povo dava por nome de “contentor humano”.
Recordo desse dia como se fosse hoje: Ela vinha vestida com trajes hippie, saltos muito altos, calça a boca de sino, cabelos compridos e uns grandes óculos que envolviam todo o seu rosto, para não falar nos seus lábios com um vermelho bem garrido.

Hoje pode parecer natural, mas naquela altura, como o país era muito atrasado, quem se vestia assim era considerado louco, mesmo depois do fim de uma ditadura, que tinha durado aproximadamente quarenta e oito anos. Como eu estava com receio, alguns dos meus colegas me agarraram pelas pernas e braços na tentativa de me levarem para junto dela, desse modo eu me debatia que nem um louco tentando fugir, eles porem ria de mim sem parar. Esse encontro me perturbou de tal forma que durante muito tempo evitava qualquer contato com o sexo oposto. Desse modo o meu primeiro beijo só aconteceu quando já tinha vinte anos de idade e que por incrível que possa parecer a minha primeira relação se deu com uma moça que era divorciada e que tinha dois filhos. Só depois dessa minha primeira relação é que passei a namorar mesmo assim com muita dificuldade, pois a doutrina católica que estava de tal forma enraizada dentro de mim, me impelia a creditar que tudo era pecado.

Outra prova que tive que enfrentar foi a de ir à escola, pois no caminho tinha que passar por a tal casa mortuária. Para um adulto parece ser a coisa mais comum do mundo, mas para mim que era apenas uma criança, morria de medo cada vez que passava por lá, ou então esperava por os meus colegas. Foi só passado um ano e meio que acabei por sair do jardim infantil e desse modo nunca mais passei por esse trajeto aterrorizante. Entrei assim para setor só de rapazes. Todos nós éramos pobres, as roupas que tínhamos no corpo eram dadas por varias instituições e só as trocávamos uma vez por semana. Recordo-me que havia uma sala, com uma mesa de cerca de dois metros por um e meio aproximadamente, onde um agente da policia com um lençol branco amarrado pelas pontas despejava as roupas. Ele abria-o sobre a mesa e cada um tinha que se virar como podia. Era uma confusão tão grande que se não nos apressássemos levávamos apenas o que sobejava. Ouve alturas que cheguei a andar com calças bem largas e muito raramente calçava meias, quanto aos meus sapatos eram sempre apertados e velhos. Deste modo durante a semana íamos trocando uns com os outros, pois era impossível estar vestido naquelas condições. Quanto a higiene, cada um de nós recebia um pedaço de sabão azul e os nossos banhos eram assim. A propósito nessa época nunca me lembra de ter escovado os dentes, só anos mais tarde quando entrei noutro colégio é que me dera uma escova e a famosa pasta por nome “Couto”.

Os rapazes da Mitra eram muito problemáticos e o pior deles era o Caolho, que adorava lançar pedras nas nossas cabeças. Certa altura, já adulto, fui com um amigo a Mitra e dei de cara com ele. Estava tão mudado que só o reconheci por causa da expressão do seu olhar. Não lhe disse nada, pois senti certo receio em fazê-lo. Acho que ele trabalhava lá, mas não estou bem certo sobre isto.
Continuando o meu raciocínio recordo: que antes de nos irmos deitar ficávamos numa sala onde todos ficavam forçadamente sentados, de frente para televisão, sem poder falar ou rir. De todas as coisas absurdas que passei na minha vida, está foi sem duvida a pior, pois quem abrisse a boca para falar ou rir ficava de castigo. O castigo era bem duro: ficar de joelhos virado contra a parede e o pior de tudo era que, quem tomava conta de nós eram os rapazes mais velhos, que faziam questão de abusar dos mais novos. Passei por muitas outras experiências dolorosas e alucinantes, que só de me lembrar me dá arrepios, mas também tive experiências positivas. Foi nesse mesmo orfanato, que tive meu primeiro contato com a arte, acho que por volta dos sete anos de idade. Esse contato se deu em uma verificação de nível de conhecimentos adquiridos pelas crianças, onde o intuito da assistente social era medir a capacidade artística de um determinado grupo de alunos, no qual eu estava inserido. Com uma quantidade de argila, pude retratar uma imagem tridimensional de um elefante, causando desde então a primeira expressão de espanto diante dos meus colegas ao constatarem a perfeição do meu trabalho. Também me recordo, com um misto de pesar e alívio, do dia que meu irmão foge do orfanato, para passa a residir no Colégio que ficava no centro da cidade do Porto.

Anos mais tarde o meu pai me tirou da Mitra e me levou de comboio para o Porto para poder estar mais perto de meu irmão. Só que o padre que era também o diretor dessa instituição não tinha sido devidamente informado da minha transferência. Por isso fora obrigado a levar o caso ao tribunal de menores do Porto. A minha sorte foi que o padre era uma pessoa boa, desse modo ele acabou por responsabilizar se pela minha tutela até que completasse os 18 anos.

Foi por essa altura que passei viver uma nova experiência de vida, que não foi menos traumática, principalmente nos dois primeiros anos, pois sofria constantemente agressões por parte das gangues da Rua Escura e das Fontainhas, que freqüentavam a mesma escola que eu. O meu irmão também não ficava a trás, devido à falta de paciência que tinha para comigo, me agredia constantemente e ate sei que não fazia por mal. Comecei desse modo a refugiar-se nos desenhos como forma de não ter que encarar a dura realidade que estava a ser submetido, por isso acabei por perder o interesse pelos estudos e passei, a partir dai a dedicar-se quase que totalmente arte. Só anos mais tarde é que descobri o prazer de se pintar uma tela. Por essa altura mal sabia o que era arte e nunca imaginava poder me tornar artistas, mas arte estava-me no sangue ou na alma e desenhava ou pintava como louco porque era o que de melhor sabia fazer.

No colégio do porto a vida era desta forma: Acordamos por volta das sete horas da manha, o monitor que estava de serviço batia palmas e passava por cada quarto mandando-nos levantar. Fazíamos a nossa toalete e nos vestíamos para irmos tomar o café da manha, mas antes tínhamos que ir de dois em dois a carpintaria pegar um cesto de lenha para o fogão da casinha. Depois disso entravamos no refeitório e comíamos um pedaço de pão e café com leite. Alguns iam para a escola, localizada fora do colégio, outros tinham que fazer limpeza, varrer os corredores e banheiros e os demais tinham que ir para a encadernação, tipografia ou carpintaria. Eu normalmente ia para a encadernação durante toda a manhã para dobrar folhas ou alcear cadernos, para fazer blocos de recibos. Às vezes chegavam livros para encadernar e dentre eles, centenas de diários da republica, que só de ver dava desespero e vontade de chorar, pois tínhamos que coser os livros a portuguesa ou a francesa por horas a fio. Por volta do meio dia o senhor Joaquim tocava o sino e todos nós, em fila indiana, entravamos no refeitório para almoçarmos. Após o almoço, alguns iam para a escola e os outros para os postos de trabalho. Como a escola era fora do colégio saiamos sempre em grupo, afim de que os alunos dessa mesma escola não implicassem conosco. Eles me causavam medo e raiva, pois tinha sempre que procurar uma forma de fugir deles para evitar confrontos. Com o passar dos anos eles me deixaram em paz debaixo de muitas lutas e sacrifícios, mas voltando a rotina do colégio, como o jantar era às oito horas, tínhamos que ir para a sala de estudo das 18 ate às 20 horas e só depois quando sino tocava sairmos para jantar. Os monitores não suportavam conversas nos horários de refeição, porque fazíamos muito barulho. Quando isso acontecia nos colocavam de castigo por aproximadamente duas horas sem podermos falar. Se nos comportássemos devidamente íamos para o recreio até as 22 horas, retornávamos a sala de estudo onde ficávamos até as 23 horas e só depois é que íamos descansar.

Como eu urinava na cama ficava num quarto com uma só cama, com janela que virada para o rio douro e com vista para a cidade Vila Nova de Gaia. Na verdade, da janela do meu quarto eu tinha uma paisagem deslumbrante que me fascinava. No fim de semana era diferente, principalmente no dia de domingo. Levantávamos às oito horas para irmos à missa e só depois é que tomávamos o pequeno almoço. O restante do dia podíamos brincar, mas na hora do almoço, antes de sairmos do refeitório, cada um recebia uma pequena mesada entre cinqüenta a cem escudos, dependia da idade de cada um. Na parte da tarde saiamos para darmos um passeio pela cidade. Essa é uma das boas lembranças que guardo comigo. Normalmente saia sempre com o Nelson, o Jerônimo e a Adelino ate a beira do Rio Douro que tanto amávamos, pois foi o palco principal de todas as nossas aventuras durante anos. Certa vez decidimos subir a ponte D. Maria Pia, pelo arco principal junto à margem esquerda do rio. Hoje confesso que foi uma grande asneira, pois se algum de nós tivesse caído, a ventura se transformaria em tragédia para o resto de nossas vidas. O Nelson cresceu e concretizou o seu sonho de ser goleiro. O Jerônimo tornou se diretor do colégio e morreu tempos depois, o Adelino, que adorava brincar de policia e ladrão, acabou por entrar mesmo para a academia policia militar, permanecendo lá ate aos dias de hoje. Quanto a mim, bem… acho que virei um andarilho e com relação aos meus sonhos de menino, pouco ou nada podia concretizei, mas sem sombra de duvida tive uma boa experiência no colégio, que contribuiu para a formação da minha personalidade e me marcou profundamente, devido às amizades que fiz durante todo esse período. Até hoje mantenho contato com alguns deles por cartas e e-mails, principalmente com o Nelson.

O meu irmão, após ter saído do colégio tornou se homossexual e foi viver para Paris. Ao fim de uns anos contraio AIDS e morreu quando se preparava para fazer seus 30 anos. As minhas irmãs dispersaram e constituíram família. Atualmente tenho cerca de oito sobrinhos e nenhum deles teve que viver em orfanatos ou colégios. Aparentam ter boa saúde e tem tudo que nenhum de nós teve a oportunidade de ter: amor, muito amor. Eles Adoram-me e a recíproca é mesmo verdadeira, mas geralmente não nos vemos com a freqüência que gostaria, porque vivo a 360 km da cidade do Porto, precisamente em Lisboa.

Após a minha saída do colégio fui viver com uma de minhas irmãs, nos arredores do Porto. Como os anos eram maus eu e meu cunhado decidimos ir para o Reino Unido em busca de melhores oportunidades de vida, o que infelizmente não aconteceu, pois estávamos em situação ilegal no país e também não dominávamos o idioma. O meu cunhado retornou a Portugal e eu decidi viajar pela Europa para conhecer alguns países, tais com França, Holanda, Itália e Alemanha, onde fiz uma grande amizade com um professor catedrático e residi em sua casa em Munique por um período de meio ano. Ele ensinou-me o idioma inglês e despertou em mim o gosto pela leitura. A partir daí fui desenvolvendo as minhas capacidades intelectuais e culturais com muito mais empenho e maior desenvoltura, principalmente no campo das artes. Tornei-me assim um autodidata e aprendi o espanhol e um pouco francês. Aprofundei-me na literatura e nas artes, em especial a do século XIX e XX. Prolonguei esses estudos por mais sete anos e acabei por descobrir o mundo fascinante do saber ao compartilhar idéias com vários artistas e também visitando alguns museus da Europa. Grande parte do meu conhecimento se deu informalmente, através do gosto pelas biografias dos grandes mestres conceituados, tais como Claude Monet, Vincent Van Gogh, Munch, Modigliane, Picasso, Pollock, dentre outros. Quanto à leitura, sempre trazia comigo alguns livros: de Jean-Paul Sartre, Albert Camus, Freud, Fernando Pessoa, Eça, Jorge Amado e Emile Zola por estar relacionado com a corrente impressionista.

Freqüentemente também mantinha diálogos com intelectuais em vários cafés e durante esse mesmo período viajei diversas vezes com o intuito de aperfeiçoar a minha arte. No meu regresso a Portugal passei mais uma vez por Paris e vivi por um tempo na Rua Lepic no apartamento que era de um grande amigo. Tempo depois me dirigi a capital espanhola, com o propósito de contemplar grandes obras dos pintores espanhóis: Picasso, Dali, Miró dentre outros como Velásquez e Grego. Já em Portugal retornei a casa da minha irmã, tomando conhecimento que o meu cunhado encontrava-se trabalhando no Iraque, onde permaneceu por um período de sete meses, mas devido a conflitos religiosos naquela nação foi forçado a regressar. Após o regresso definitivo do meu cunhado, por razões de incompatibilidade que se tornaram ainda mais freqüentes, decidi deixar a casa da minha irmã e me sujeitei a viver com meus companheiros de trabalho em uma obra, que não me oferecia as mínimas condições de vida. Nesse mesmo ano foi convocado pelas forças armadas para apresentar-me a uma inspeção, da qual vim, a saber, mais tarde, que passei a reserva territorial devido a excesso de contingente. Foi no período compreendido entre os 18 e 20 anos, que passei uma das piores fases da minha vida, pois não me conseguia entender com as minhas irmãs e por essa razão tive que me sujeitar aceitar um trabalho duro no qual era explorado, pois trabalhava sem direitos para um sobem preiteio que às vezes nem paga. Isso desencadeou em mim uma grande depressão, que me levou a tentar suicídio.

Depois de tantos dissabores retornei, mais uma vez, a casa da minha irmã, onde acabei por conhecer através dela, uma denominação evangélica da qual me tornei membro. No final do ano de 1991 concorri a uma vaga no ministério da educação, visando uma estabilidade financeira, acabei por conseguir uma vaga em Lisboa e por lá fiquei cerca de 10 anos como guarda noturno.

Em Lisboa, passei a viver no Vale da Amoreira, juntamente com uma comunidade de africanos de Guiné-bissau e de Angola, tendo sempre que me deslocar de ônibus, barco e metrô para chegar ao trabalho. Certo dia ao cruzar a Rua Augusta, acabei encontrando um grupo de artistas plásticos. Dentre eles conheci aquela que viria a ser a minha futura esposa. Mal casei adoeci e foi submetido a uma cirurgia de pneumotórax espontâneo num hospital de Lisboa e fiquei impossibilitado de trabalhar por algum tempo. Juntos, compra mos um pequeno apartamento em Sintra e um ano depois nasceu um filho, o qual recebe o nome de Israel. Divorcie me passado sete anos e larguei tudo e viajei para a América Latina aonde fui residir no centro de São Paulo. Ficando por ai um tempo fazendo exposições e participando de vários inventos culturais, por vezes era convidado para dar palestras sobre arte em universidades e juntamente com vários artistas fundamos um movimento no qual debatíamos assuntos sobre tudo que dizia respeito à globalização, o qual demos o nome: “Movimento Artístico os Globalistas do século XXI”. Escrevi vários artigos do âmbito cultural para jornais e revistas. Visitei alguns museus e o museu do MASP na Avenida Paulista, era para mim paragem obrigatória. Uma vez em cada mês ia lá para contemplar as obras dos grandes mestres da pintura, tanto Brasileiros como Mundiais. Desse modo acabei por me fascinar pela arte brasileira e seus pintores: Portinari, Aldemir Martins, Di Cavalgati e Tarsila de Amaral e tantos outros. Quanto à literatura brasileira o meu preferido é sem duvida “Os capitães da areia” ou meninos de rua do escritor Jorge Amado.

Como a pintura por essa época me começou a dar algum lucro, decidi viajar pela América Latina de ônibus, dessa forma poderia conviver direitamente com o povo e compreender suas raízes. Passei por Rio de Janeiro e fiquei alguns dias em Copa Cabana na casa de uma escultora que tinha conhecido num evento em São Paulo. Dali, tomei um ônibus com destino a Foz do Iguaçu e cruzei a fronteira, entrado deste modo no Paraguai com destino a cidade de Asuncion onde fiz alguns contatos com índios locais, chamados de guaranis. Recordo que passei um mau bocado por lá, pois o meu cartão de credito não era aceito em nenhuma das caixas. Graças a um pastor evangélico não tive uma pior sorte. Ele me ajudou imensamente e por isso e muito mais que fez por mim, lhe sou muito grato. Dali para a Argentina era só atravessar um rio, então entrei em uma embarcação em Asuncion com destino a segunda maior metrópole da América do Sul: Buenos Aires e por lá fiquei cerca de um mês, a contemplar sua arquitetura e seus dançarinos de rua, Dos quais fiz alguns esboços para futuras telas que acabei por vender anos mais tarde em Portugal.
Saindo de Buenos Aires fui para Montevidéu no Uruguai para conhecer a belíssima baía, pela qual saem e entram todos os dias às mercadorias que se importam e se exportam para todo mundo, em especial a da rota do Mercosul. No Peru estive em Lima e de lá tomei um trem ate a cidade sagrada, mais conhecida por cidade montanhesa de Machu Pichu ou “cidade perdida dos Incas”. É uma cidade pré-colombiana e bem conservada, localizada no topo de uma montanha a 2400 metros de altitude, cercada por outras montanhas e circundada pelo rio Urubamba, que lhe proporciona uma atmosfera única e de grande beleza. Testemunho disso são as muitas fotografias que por lá tirei.
Na Bolívia aproveitei para passar na casa de um grande amigo, Fernandez Gonzáles, que vive em Nuestra Señora de La Paz ou simplesmente “La Paz”. Recordo-me que o conheci numa praia em Faro. Ele fazia tatuagens nos turistas que por lá passavam. Quando me viu em La Paz ficou surpreendido e me convidou a ficar por um tempo com ele e com a sua numerosa família, que vivem no bairro San Antonio. Por essa altura ele se encontrava desempregado, por isso fez questão de me levar a conhecer a sua cidade. Fomos a vários lugares: o Valle de la Luna, Palácio Legislativo do Governo e por fim a belíssima Catedral de Nossa Senhora de La Paz com os seus numerosos Portões, que se já não me falha a memória são nove. Antes da minha partida fui com ele no centro para contemplar a imponente Igreja de São Francisco. Despedi-me dele e atravessei a Colômbia com destino a Venezuela e seguindo os contornos de um estreito vale montanhoso, acabei por chegar à cidade de Caracas onde fiquei 7 dias no Hotel Ávila. Durante o tempo que estive em Caracas aproveitei para conhecer a cidade: tomei o metro e fui ate o Capitólio Nacional, que ocupa todo um quarteirão com os seus domos dourados e de arranjos neoclássicos, fui também ao Parque Del Este, que fica mesmo no centro da cidade. É um paraíso verdejante com um pequeno zoológico cheio de animais exóticos vindo de todas as regiões do país. Uma das coisas que mais me fascinou foi a réplica do famoso navio, guiado por Cristóvão Colombo, o Santa Maria, localizado na parte sul do Parque e que nos dá uma vaga idéia para compreensão da sua maravilhosa viajam com destino ao novo mundo.

Por fim fui de barco a República Dominicana e a Cuba, aonde tive o privilegio de ver Fidel Castro numa praça a discursar. Recordo-me que só em Cuba tirei mais de cento e cinqüenta fotos. Cada uma mais bela do que outra. Voltei para Brasil e fui residir numa pequena cidade por nome de Ipubi, no estado de Pernambuco, mas após quatro anos cansei-me de tudo e voltei à pátria num vôo direto de S. Paulo com destino a Lisboa. Na minha mala trazia algumas telas enroladas que dei por título, período verde e amarelo. A minha espera estava o Wando meu grande amigo. Atualmente é formado em psicologia, tem um consultório nas amoreiras, casou com uma sueca e tem já dois filhos. Há uns anos atrás éramos amigos inseparáveis, pois por essa altura ele dividia o seu tempo entre os estudos e o trabalho e de vez em quando saiamos com um grupo de amigos para irmos tomar uns copos lá no bairro alto ou então quando havia um feriado na sexta feira íamos todos de carro para regiões remotas. Foram momentos únicos que a mente jamais se atreve apagar, lugares paradisíacos que ao fim de uns anos nos fazem sonhar continuamente com eles.

O Wando triunfou, mas nunca se esqueceu de mim, ao contrario da maioria das pessoas que após atingir uma meta, engradassem a si mesmo e escolhem as pessoas que mais se identificam com seu novo padrão de vida. Já não o vejo com tanta freqüência, mas não me atrevo a importuná-lo, afinal tem uma família encantadora e o seu trabalho o prende de tal maneira que pouco lhe resta para si.

~ por miguelwest em 23 de Setembro de 2008.

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