QUARTO CAPITULO


 

PAIXÕES

Pela manha a campainha tocou quando ainda me encontrava deitado e fiquei surpreendido, pois já faz algum tempo que não recebia uma visita. Era um desconhecido que vinha da parte do Pedro para me pedir que lhe fizesse um pequeno retrato da sua filha. Fiz lhe saber que não era retratista e que o meu estilo não ia muito ao gosto dos fregueses, mas ele surpreendeu-me, dizendo que queria algo original, coisa que atualmente não e muito comum. Sendo assim resolvi aceitar, mas com essa condição. Ele ficou por ali a remexer algumas de minhas telas e soletrando palavras desconexas, que me soaram como um elogio. Em um determinado instante ele mencionou que um dia destes tinha estado numa casa de leilões e que num dos lotes havia uma pequena tela da minha autoria datada de 1997. Indaguei sobre o lote em questão e qual não foi a minha surpresa quando mencionou que pertencia ao filho do senhor Campelo. Por incrível que possa parecer ela tinha sido arrematada por um bom preço. Enquanto ele falava, eu pensava comigo mesmo que um santo deveria ter caído do altar nesse dia, pois a venda de uma obra em leilão me pareceu um milagre, porem não fiquei muito surpreso, afinal já nada me surpreende tanto hoje em dia. Tudo é possível e o tempo geralmente se encarrega de nos pregar certas partidas. Antes de sair ele comprou-me duas telas, que eu havia pintado há mais de dez anos e pagou logo em dinheiro, o que não foi nada mal. Santo Deus, porque será que estas coisas só acontecem quando estamos no fundo do poço? Mil euros? Uma raridade! Pelo que me deu a entender ele já vinha mesmo desponto a comprar alguma coisa. Em meio a uma frase ou outra acrescentou que sua esposa possuía uma galeria de arte no chiado e que fazia questão de ter os meus trabalhos expostos. Em outros tempos ate teria me entusiasmado, entretanto, após inúmeras decepções e experiências negativas com expositores, apenas senti desprovido de qualquer sentimento, embora desta vez me sentisse agradecido pelos quadros que ele comprou, devido ao montante que recebi.

Para falar a verdade, vida de artista não é fácil, as dividas se acumulavam rapidamente, contudo, já que não posso saúda-las todas de uma vez, vou aproveitar a oportunidade para mandar consertar a minha televisão, que se encontra avariada já há algum tempo. Com o resto do dinheiro pago as despesas que estão em atraso e abasteço a despenca e pouco ou nada vai me sobrar.

Depois de ele ter saído fiz a minha toalete e dirigi-me ao Largo da Graça para tomar o pequeno almoço, ou devo dizer café da manha? Já não sei ao certo! Como estava há chuviscar um pouco, vesti a gabardine e segui meu caminho. Do meu apartamento ate o Largo da Graça são apenas 10 minutos e no percurso posso rever os rostos dos que por mim passam e que são sempre os mesmo. Isso geralmente acontece quando ficamos muito tempo em um determinado lugar. Como exemplo posso citar a garçonete que trabalha no café Sabores da Graça. Na época que ela veio trabalhar para o café tinha aproximadamente vinte e poucos anos, era uma jovem lindíssima, sempre alegre e pronta para tudo. O tempo passara por ela como um relâmpago. Casara, tivera filhos e o seu rosto tornou-se pesado, assim como todo seu corpo. Hoje em dia nunca sorri e dificilmente diz bom dia para os clientes. Parece que a vida não lhe trousse o que ela tanto esperava. Havia também um senhor que ia todas as manhas a esse mesmo café, assentava-se sempre na mesma mesa, fumava o seu cigarrinho, pedia meia de leite com uma torrada e enquanto comia, lia o jornal “A bola”. Como sua idade já era bem avançada, um dia a sua mesa ficou vazia e outro tomou seu lugar, dando assim inicio a outra historia dentro de tantas historias que a cidade esconde.

O que me leva a freqüentar esse estabelecimento é que na parte de baixo existe uma pequena fabrica de confeccionar bolos e pães e é por esse motivo que sempre que possível venho aqui. Tudo é fresco e os preços estão sempre em conta. Sento-me em uma das mesas disponíveis e a garçonete serve-me uma meia de leite bem escura e dois pasteis de nata. Por ali fico aproximadamente duas horas a mais a rabiscar alguns apontamentos no meu diário.

No que diz respeito aos meus diários, tenho vários em casa, preenchidos com palavras soltas e vagas, bem como alguns desenhos do meu cotidiano. Rostos de amigos ou de pessoas estranhas, mas que sempre apresentam sobre suas feições algo que me cativa. Desenhos de recantos ou ruas de Lisboa, assim como de seus edifícios. Nas minhas muitas viagens levava sempre comigo um ou dois cadernos, mas infelizmente muitos deles perderam-se e outros fui oferecendo aos meus amigos e ao meu filho. A minha amiga Sara Vargas que atualmente vive em Espanha, na cidade de Cadiz, que sempre que me visita leva um ou dois dos meus diários com o pretexto de ler. Se eu a deixasse bem que ficaria com todos eles.

O mesmo acontece quando vou ao Café Nicola e ao Café A Brasileira. Sempre que faço um desenho, tenho por habito oferecer aos que se assentam ao meu lado e por esse mesmo motivo é que tenho uma coleção de pequenos desenhos espalhados pelo mundo todo, devido à quantidade de turistas que anualmente visitam esses tipos de estabelecimentos. Fazendo bem as contas ate que não me posso queixar. Mesmo que tenha oferecido alguns dos meus trabalhos, também vendi ao logo da minha vida muitas telas, mas sempre por preços risórios e para ser franco não tenho habito de me prender a nada, afinal, estou sempre a mudar de um lugar para outro. Só na cidade de Lisboa já devo ter estado em milhares de apartamentos ou quartos, já que tenho um pequeno problema comigo: canso-me depressa de tudo e de todos. Se não parto para outro lugar acabo por entrar em depressão.

É por isso que ninguém nunca sabe aonde vivo, a não ser que algum amigo de longa data me encontre casualmente, ai sim, deixo ficar o meu contato com ele e seja o que Deus quiser. Há duas coisas que levo sempre comigo: um lápis e um caderno, pois nunca sei o que pode surgir. Adoro ser surpreendido pelas pequenas coisas da vida. Um rosto que se diferencia de tantos rostos, uma arvore ou um edifício a cair aos pedaços, tudo isto para mim tem sempre algo de novo. É como escrever um poema ou receber uma dádiva dos céus. Desenhar para mim tornou se uma terapia que me distrai e ajuda-me a relacionar-me com todos sem que me envolva diretamente nas suas vidas. Conheço todo mundo e ao mesmo tempo não conheço ninguém, sou o que se pode chamar de um andarilho, que ama a liberdade e que ao mesmo tempo vive aprisionado dentro de si mesmo. Cada pedra desta cidade me pertence. As ruas, avenidas, bares, cafés, galerias, salas de teatro e centros comercias. Tudo é meu e eu não sou de ninguém. Ora vivo numa cidade ou em outra, mas Lisboa cativou de tal forma que acabo sempre por voltar aqui. A cidade branca como todo mundo a chama, com seus casarios e bairros cercado de ruelas estreitas em forma de labirinto, são para os meus olhos um poço sempre cheio de surpresas. Recordo-me que quando cheguei aqui no ano de 1992, se não me falha a memória, aproximadamente no mês de setembro. Nessa altura fui viver para o Barreiro, precisamente no Vale da Amoreira, na margem sul do Tejo. Lembro-me que tinha que apanhar o barco para chegar ao meu posto de trabalho, localizado em Lisboa. Meio ano depois acabei por me mudar para a capital e por aqui me tenho mantido ate ao presente momento. Exceto em alguns momentos instáveis da minha vida, que tive que sair daqui e viver em outros lugares, na esperança de encontrar alguma oportunidade melhor. Sendo assim passei algum tempo em Coimbra, Aveiro, Leiria e Porto entre outras cidades que já não me recordo no momento. Penso que se recordasse, ainda teria muitas outras para mencionar, localizadas ao redor do mundo. Em especial as grandes metrópoles do Brasil. Em cada uma dessas cidades eu vivi grandes historia que me marcaram profundamente. Histórias de amor e de grandes amizades, que me afirmaram singularmente o significado do verdadeiro existencialismo humano, pois uma grande vida é composta de pequenas partículas sobrepostas na formação de uma inesquecível experiência. Com estas experiências fiquei convencido de que o homem que nunca tenta uma ou duas mudanças em sua curta vida, jamais poderá compreender a si mesmo. Conheci também indivíduos que nasceram e sempre viveram na mesma cidade sem nunca terem ido a parte alguma ou ao menus conhecido algo de novo. Viviam presos na mesmice da sua própria ignorância e fechavam os olhos para a vasta imensidão que os cercavam. Talvez eu esteja errado ou quem sabe a linha traçada do destino desses indivíduos se limite a isso mesmo. Nascer e viver num só lugar é o quanto lhes basta para que sejam felizes. Se é que são mesmo felizes!

Quanto a nós artistas, me desculpem mais uma vez o plural. Somos autênticos andarilhos e também eternos românticos, deste modo não é de se espantar que Picasso tenha casado por varias vezes. Enfim, es um assunto demasiado delicado para se aprofundar. Quanto a mim, que direi dos meus amores? Já não lembro quantos ou quais foram, mas sei bem como eram. Porque a verdade é que eu esqueço facilmente de nomes, mas jamais esqueço uma fisionomia, pois a registro de tal forma dentro de mim, que por mais que eu queira, tenho dificuldades para esquecer. Quando estou com um grupo de amigos, evito falar sobre este assunto; sou demasiado piegas e choro por tudo e por nada. As coisas do coração acabam comigo da noite para dia, abalando-me por semanas a fio, mas recordo-me que alguns anos atrás que cheguei a sentir uma fixação por uma jovem de 21 anos, que me marcou de tal forma, que ate hoje cenas vividas por nós dois vagueiam deliberadamente pela minha memória, sem me pedir licença ou permissão. Conheci-a na primavera do meu ultimo ano de casado. Por essa altura éramos apenas bons amigos, mas devido ao carinho que nutríamos um pelo outro, essa amizade depressa se transformou em algo muito mais profundo. Seus cabelos longos e negros contrastavam com seus olhos azuis fatais, ela era para mim como uma Vênus pronta a despertar de um longo sono. Inteligente, amável e sempre disposta a enfrentar todos os obstáculos da vida. Ela me seduzira como ate então nenhuma outra mulher jamais conseguira. Há quem diga e com razão que todos os artistas têm uma musa. Para mim ela fora essa musa e ate hoje permanece como um ícone escondido dentro de mim e por isso a retratei por varias vezes em algumas das minhas telas. Era como se cada parte do seu corpo fosse em parte o meu próprio corpo. Não sei se foi amor ou se foi apenas uma paixão efêmera, falo apenas o que o meu coração me diz: que por mais que os anos passem, ela será insubstituível. Após um período de dois anos tudo acabou entre nós, pois meu temperamento não ajudava em nada, sou como se diz: calmo por fora e completamente agitado por dentro. Um defeito que ate hoje não consigo superar. Deve ser por isso que não me envolvo com mais ninguém. É de lamentar que a grande maioria das pessoas afirmem que nós os artistas não sabemos amar. O que não é verdade.

A palavra amar para nós é tão profunda, que só a prenunciamos quando acreditamos que verdadeiramente a temos alcançado. Atualmente compartilho uma relação com uma jovem do Leste Europeu, que conheci há dois anos atrás. Um sonho de mulher. Loira de olhos verde mar, com altura de 1.80 e deslumbrante. Mais do que uma linda mulher é também uma boa amiga. Tem dois empregos e uma filha que vai pela primeira vez para escola. Quando ela esta de folga liga-me, pois se preocupa comigo e ate sei que nutre um carinho muito especial por mim. A historia da sua vida e uma das mais tristes que tenho ouvido. Quando ela tinha seus 14 anos vinha a caminho de escola para casa e se defrontou com um grupo de homens que a raptaram e a levaram a força para a prostituição. A drogavam durante todo o tempo que esteve aprisionada e abusavam dela por horas a fio ate que um determinado dia conseguiram fugir com ajuda de um jovem que se apaixonou por ela. Ele comprou duas passagens de trem com destino a Portugal e debaixo de muitas lutas conseguiram chegar são e salvos ao seu destino. Em Portugal viveram na clandestinidade, sempre com medo de ser pegos pelas máfias do leste europeu. Ela acabara por encontrar trabalho num restaurante como ajudante de cozinheira e ele fora trabalhar nas obras, mas raramente o pagavam. A vida parecia que lhes estava a correr bem, mas meio ano depois, ele caiu do terceiro andar de um andaime e ficou incapacitado de trabalhar. Sem plano de saúde a sua situação se agravou e para completar o patrão o demitiu sem lhe dar nenhuma indenização. Enquanto estava no período de recuperação a sua situação se agravou ainda mais. Uma apendicite supurou e o levou a morte por não ter sido socorrido a tempo. Por estar grávida dele, ela acabou por ser dispensada do seu emprego e ficara completamente só, em um país que lhe era totalmente estranho e temendo por ser perseguida, nunca se reunia com a comunidade, como grande parte dos emigrantes fazem. Pensava em pedir asilo político, mas temia ser deportada e essa era a ultima coisa que ela queria, pois pensava tanto em si como na criança que carregava em seu ventre. Foi por essa altura que a conheci, quando sua gestação ia no quinto mês. Vivia num prédio abandonada que fazia esquina com meu apartamento e saia todas as noites, para catar os restos de comida que os grandes supermercados deitam fora. Como todas as noites, antes de me deitar, tenho habito de ficar de frente para a janela a fumar um cigarro e a ver o movimento constante dos que passam. Aos poucos comecei a ter consciência daquela situação e certo dia encontrei coragem para ir conversar com ela. Não foi nada fácil, ela era desconfiada, tímida e carregava dentro de si todas as dores do mundo. Seus olhos verde mar deixavam transparecer certa tristeza e o seu rosto encontrava-se desfigurado de tanto chorar. Eu não podia permitir tanto sofrimento e nem mesmo me sujeitar ao conformismo. Tinha que tentar fazer algo para minimizar tanta amargura! Não agüento sofrer, quanto mais ver sofrer os outros. Deve ser por isso que nada tenho. Tudo que tenho dou e se não dou mais e por que tenho tão pouco.

Certo dia consegui comunicar-me com ela em inglês, em meio a uns trocadilhos de palavras em espanhol. Disse lhe que gostaria de ajudar se ela assim permitisse. Como tenho um olhar calmo e distante, cativo todo mundo e ela não foi uma exceção. Mesmo relutante aceitou. Por essa altura trabalhava como guarda noturno numa escola e às vezes trazia comida para casa. O meu ordenado era pouco, mas não me preocupei com mais um gasto. Não importa o quanto tenho, sempre dou um jeito. Como um familiar meu dizia, quem faz comida para um, faz para dois ou três. É em ocasiões como esta que desprezo os que tantas vezes desperdiçam o dinheiro com coisas fúteis. Seres irresponsáveis, egoístas e esbanjadores, só pensando em si mesmos e vivem se lamentando por tudo e por nada. Nem mesmo param para por a mão na consciência e pensar em nos outros que necessitam de um mínimo para sobreviver, mas não têm absolutamente nada. Pessoas que esbanjam não sabem o verdadeiro significado da palavra sofrer, nem têm uma idéia do que esta acontecendo nas ruas por onde passam diariamente. A noção de sofrimento é obtida através de uma tela de televisão, onde vêem, do outro lado do mundo, as misérias do mundo e são ate capazes de se lamentam, mas são incapazes de dar uma esmola ao pobre que passe em sua rua. Repudio também certas atitudes dos nossos governantes quando tentam fazer caridade para com outros povos, apenas para mostrar as outras nações em redor que no nosso país tudo vai bem. Sete mil toneladas de alimentos para Sudão ou para Etiópia, dois milhões de euros para os pobrezinhos que estão na Ásia, porque ouve por lá uma grande catástrofe, enquanto grande parte do povo da sua própria nação vive abaixo da linha de pobreza, na completa miséria. Interrogo-me se estou a ser egoísta ou se na verdade estou a ver o que tão poucos querem ver. As pessoas que aqui vivem sofrem muitas privações ou estão sufocadas de dividas e mais dividas. Desempregados, desnutridos, doentes e desesperados, mas que, infelizmente, são sempre postos em segundo ou terceiro plano. Santa hipocrisia, será que os governantes deste país não tem consciência ou não podem agir face a tudo o que na verdade existe dentro das suas fronteiras? Ate quando um cego guiara outro cego?

Voltando ao assunto anterior. Falei com meu eis concunhado que é medico no hospital S. José, no centro de Lisboa e disse-lhe que precisava urgentemente da sua ajuda. Por ser um homem bom e prestativo se prontificou a tratar ele mesmo de tudo.

Meses depois, às 22h ela deu a luz a uma bela menina saudável, a qual deu o nome de Raquel. Assim que se recuperou do parto conseguiu trabalho de domestica no bairro de Alvalade. Durante o tempo que viveu comigo, acabamos por nutrir certo carinho e respeito um pelo outro. No principio, como disse, éramos amigos e nada mais, mas aos pouco a nossa relação se intensificou e daí surgiu algo bem mais forte. Infelizmente, devido ao meu temperamento e por não gostar de estar sempre no mesmo lugar, acabei por me separar dela e mudei-me para outro apartamento, mas sem que antes falasse com o proprietário do imóvel. Pedi-lhe, encarecidamente, que a deixasse viver lá sobre a minha inteira responsabilidade e a pouco tempo atrás sobe que ainda vive por lá. Atualmente sei que tem algum dinheiro no banco e que muito em breve vai abrir uma pequena butique de roupa intima feminina em Benfica.

ROUPA SUJA EM PRAÇA PUBLICA

Ainda não recebi a notificação de trabalho, mas como tenho algum dinheiro vou a Baixa e aproveito para passar na Casa Fernandes para comprar algumas tintas e telas. Como sou cliente assíduo eles sempre me fazem um desconto de dez por cento. Não é muito, mas é melhor do que nada. No primeiro andar do estabelecimento há uma senhora que admira muito a pintura e os pintores. Certo dia ela mostrou-me uma pequena tela pintada a óleo de sua autoria e eu pude identificá-la como sendo uma natureza morta. Queria saber o que eu achava sobre o seu trabalho e confesso que não foi uma das mais belas obras que já tinha visto, mas para uma amadora ate que não estava nada mal. A composição se interligava muito bem com as cores escolhidas. Era um trabalho dentro de uma linha de pensamento classificada como naif. Para quem não sabe, a pintora naif é de uma pureza genuína, pois tudo o que os pintores naif fazem, o fazem com amor. Cada detalhe e pormenor são de uma elegância que transporta qualquer espectador ao mundo da fantasia da sua infância. É lamentável que a grande maioria dos artistas plásticos e expositores os desprezem tanto. Eu pessoalmente fico indignado quando me acento num café e reparo que um grupo de indivíduos se põe a falar mal sobre os naif. Não suporto esses tipos de comentários, porque me deixam com um nó na garganta. São pessoas egoístas e mesquinhas que adoram vir para lugares públicos lavar a roupa suja.
Quando me deparo com uma situação como esta, simplesmente saio discretamente, pois jamais me deixo rebaixar ao nível deles. Quer gostem ou não pouco me importa. Quando alguns me olham de lado eu passo adiante como se nada estivesse acontecendo e por isso mesmo me puseram o codinome “anjo solitário”. Bonito nome, mas sei que o dizem para gozar com a minha cara, afinal de contas não consigo me esconder. As minhas andanças pela cidade de Lisboa fazem de mim uma personagem peculiar. Todo mundo já me viu alguma vez, mas eu nunca os vi. Caminho cabisbaixo, despreocupado e quando me acento numa praça a desenhar, os jovens se reúnem em volta de mim com o propósito de compartilhar suas aventuras e idéias. Qualquer palavra proferida por mim é escutada com tanta atenção que consigo senti-las no brilho dos seus olhos e com isso eu posso sentir que os transporto a um outro mundo e ao final dos meus relatos me preparo para a enxurrada de perguntas que se seguem, pois querem saber o porquê de tudo. Outras vezes me pedem para desenhar os seus rostos e não consigo ficar indiferente, desse modo os mando ficar em fila indiana e vou desenhando um a um. Quando pegam no seu desenho, geralmente saem correndo para casa para mostrarem e contarem a sua historia aos seus familiares. Por vezes aconteceu de algumas pessoas desconhecidas virem falar comigo, apenas para me dizer que tem um desenho da minha autoria guardado e emoldurado a um canto da casa. Eu brinco e digo: – quem sabe se um dia esse pequeno papel não vai ser um cheque? Muitos dizem que jamais se separarão dele e conversam, conversam, ate que a minha mente viaja ate casa de meus sonhos numa colina com vista para o mar e por lá fico idealizando a minha existência.

Parou de chover e um raio de sol sobressaiu por entre nuvens e atingiu meu rosto úmido. O meu cabelo está molhado, bem como todas as minhas roupas; meu caderno amoleceu e o lápis que trago sempre comigo não tem ponta. Uma pequena navalha de bolso me faz falta, embora já tenha me acostumado a descascar os meus lápis com as unhas. Na minha frente está um casal de idosos assentados num dos bancos deste jardim, lançando pequenas migalhas aos pombos que se amontoam esfomeados, esvoaçando de um lado para outro e lutando entre eles. Os pombos criam, em volta deste casal, um manto cinzento com pequenos pontos brancos. Começo a desenhar mais uma imagem significativa do meu cotidiano e fico em silêncio, absorto dentro de mim mesmo. São momentos assim que trazem alguma serenidade a minha vida.

Certo dia, conversei com um senhor de idade já avançada durante um longo tempo; contava-me com nostalgia cada momento ate então vivido. Era viúvo e tinha uma pequena aposentadoria, mas tão pequena, que mal dava para sobreviver. Sofria de reumatismo e tinha bronquite aguda, mas raramente podia comprar medicamentos, pois não tinha condições para tal. Disse-me que quando era jovem, foi viver para Angola com seus pais e que por lá abriram uma padaria. Casara se com a mulher da sua vida e tiveram sete filhos, depois veio à guerra colonial e no fim a descolonização que o obrigou a ir viver para Portugal. Por cá lhe deram o nome de retornado. Sem meio de sobrevivência acabou por ir viver com toda a sua família num bairro de lata, ou melhor, dizendo, favela, na Cova da Moura. Desempregados, tanto ele quanto sua esposa, pediram ajuda ao governo, mas só depois de dez anos lhe deram um pequeno apartamento num bairro social.

As enfermidades que ele tinha, de acordo com ele, foram devido às más condições que fora sujeito quando vivera na Cova da Moura. Era um inferno, não importava se era inverno ou de verão, pois não tinham saneamentos básicos e o lixo que se amontoavam por todos os lados atraiam ratos, baratas, mosquitos e pulgas em abundancia. Chorávamos por tudo e por nada, discutíamos porque não tínhamos pão nem remédios para dar aos nossos filhos. As assistentes sociais sempre que ali apareciam era apenas para fazerem estágios com as suas perguntas absurdas. Era sempre a mesma historia, seguida por um sorrido nos lábios e um pesar de lamento por não poder fazer nada pelas pessoas. Os anos setenta foram difíceis para todos, como ele mesmo dizia, mas com sete filhos ainda pequenos era um caos total.

A primeira a encontrar trabalho foi a sua esposa, mas para chegar lá caminhava mais de cinco km com o propósito de economizar o máximo possível para ajudar com os mantimentos de casa. Quanto ao seu marido, depois de um cansativo ano de tanta procura e com uma enorme quantidade de gente que se encontrava nas mesmas condições, ele resolveu ir em busca de um trabalho pesado devida a maior chance de encontrá-lo. Depois de alguns contatos e fichas feitas em obras, acabou por encontrar uma vaga de servente em uma construção no centro da cidade. Já tinha quarenta e poucos anos e a idade não ajudava. Todos os dias tinha dores terríveis pelo corpo inteiro, afinal durante todos aqueles anos trabalhou como padeiro e essa é uma das muitas profissões que nos desgasta bastante se não tivermos um bom condicionamento físico, mas, nos finais dos anos oitenta, tudo melhorou. O estado fora obrigado a contribuir com o bem estar dos seus funcionários e doou um apartamento a cada um dos que ali viviam, devido a uma nova lei aprovada pela comunidade européia, pois reconheceu que a situação medíocre vivida pelos seus habitantes era vergonhosa, sem mencionar que viviam em condições sub-humana. O dia da evacuação foi histórico para todas aquelas pessoas ate então tão desvalorizadas. A impressão que dava aos observadores era a de que milhares de peregrinos tinham saído às ruas para celebrar a nova fase de suas vidas. Após as suas retiradas o bairro ficou deserto e acabou por ser demolido, pois os que dali saiam jamais pretendiam retornar.

Com o passar dos anos ele envelheceu e acabara por receber uma pequena reforma do estado, por ter contribuído a vida inteira. Quanto aos filhos que tinha já estavam crescidos e ate já tinham constituído suas próprias famílias, assim também como já estavam formados e tinham seus bons empregos. Uns eram doutores e os que não eram também estavam estabilizados e ganhavam muito bem. Sabe, dizia-me ele para finalizar: fiz o que pude por eles e se não fiz melhor foi porque a vida não me permitiu, mas estou agora nesta situação precária e sem cuidados médicos, dormindo num quarto velho e sujo que fica entre o Intendente e os Anjos, só porque passei a escritura do meu apartamento para o nome de um de meus filhos. E sabe o que ele me fez? Me pôs a correr da porta para fora só porque sua esposa não me queria lá. Podia ter ficado, mas o amava e como estava velho demais para mais um desafio, desisti para felicidade dele, porque a vida dos meus filhos esta sempre em primeiro lugar. Enfim, tentei semear as mais belas rosas durante toda a minha vida, mas no final de tudo estou colhendo apenas os espinhos. Eles se esquecem que um dia também vão ser pais, que darão tudo de bom para seus filhos e que colherão apenas o que agora esta plantando. Estão cegos demais pelo egoísmo para enxergarem que precisam fazer o bem agora.

Como esse senhor, existem centenas de idosos nestas condições. Não só aqui como em todo mundo e não é preciso ir muito longe para se ouvir uma historia assim. Basta apenas perder um pouco de tempo em alguma praça, que por certo encontraremos uma ou duas historias bem similares. Deus meu como temo acabar assim! Há atitudes que nunca vou entender ou sentimentos que meu coração, por menor que seja, jamais poderá aceitar. Interrogo-me sobre estas coisas e a única coisa que entendo é que o amor esta a esfriar sobre a face da terra. Os jovens não respeitam mais os idosos. Cada um por si e nada mais existe. Quando nós artistas tentamos descrever o nosso mundo em cada uma de nossas telas, elas adquirem uma tonalidade sombria, com cores escuras e tristes. É como se um grande abismo se estivesse a formar ao redor de cada um de nós. Tudo o que temos atualmente apenas serve para nos distanciar ainda mais uns dos outros. Hoje, basta apenas um clic e tudo aparece como se surgisse do nada. Somos na verdade o produto de uma geração em que a cultura e tradição de um povo ou povos se esta a perder lentamente. Eu pessoalmente gostaria que não existissem fronteiras, mas se a falta delas nos separa ainda mais, então o que é que esta mal aqui? Recordo-me que quando vivi em São Paulo por um período de três anos, o tempo que lá estive jamais consegui fazer uma verdadeira amizade. As pessoas de lá vivem numa constante azafama, correndo de um lado para outro a procura de algo que nunca cheguei a entender bem o que era. Ate mesmo os artistas dificilmente se reuniam e quando tal acontecia era sempre tão superficial. As conversas eram uma mistura de suspiros e lamentos. É por isso que me interrogo constantemente a cerca do destino de cada um de nós, se é que realmente estamos a caminhar para algum lugar. Bem, mas quem sou eu para tentar entender ou dar respostas? Um Zé ninguém aos olhos de meio mundo e para outros talvez seja comparado a Garça Real, que pousa suas patas no lodo e no primeiro voou ela fica completamente limpa. Me vejo como um ser capaz de pisar em qualquer lamaçal e sair com os meus pés limpos; habitar dentre os piores pecadores e sair com minhas vestes brancas; conviver com qualquer tipo de pessoa, rico pobre, preto, branco sem que jamais me contamine com a soberba e o egocentrismo da raça humana. Não pense com isso que sou perfeito, pois tenho muitos defeitos, mas o meu coração é puro como o de uma criança e dentro de mim não há espaço para o ódio ou mediocridade de sentimentos mesquinhos.

~ por miguelwest em 23 de Setembro de 2008.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

 
%d bloggers like this: