BARCO DE PAPEL – Kátia Drummond


Como se a terra corresse inteirinha atrás do rio,
a seguir serras e vales num enorme caminhar,
eu vejo a imensa saudade escorrer-se sobre mim.
Sei de onde ela partiu.
.
Não sei onde vai chegar.
.
Como se o rio voltasse todo ao encontro da terra,
e, num abraço apertado, inundasse a solidão,
eu sinto a minha saudade, penitência dos aflitos,
desesperar-se.
.
E, aos gritos, mergulhar na imensidão.
Se eu fosse a terra, eu cumpria meu destino de ser leito.
Se eu fosse o rio, eu seguia meu destino de ser mar.
Eu não sou terra nem rio. Sou um barco de papel!
Onde vai, pois, um barquinho de papel a navegar?
.
(Em inverno português. Sintra, 2007)
(Kátia Drummond)

~ por miguelwest em 12 de Fevereiro de 2008.

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